quarta-feira, junho 25, 2003

ALQUIMIA – Discussão (1)

A minha peça ALQUIMIA, baseada em textos ficcionais de Virgílio Martinho (1928-1994), está em processo de escrita. Espero agora receber opiniões e críticas (e-mail: camlisbon@yahoo.com). O texto do primeiro excerto já lido em público (cf. posts infra) pode ser aqui consultado. Fica também aqui a lista de textos utilizados; em alguns deles refiro a cota de catalogação da Biblioteca Nacional.
Obrigado.



Obras de ficção utilizadas na escrita da peça:
Orlando em Tríptico e Aventuras, Lisboa, Edição de Autor, 1961 (L. 52165 P.)
O Grande Cidadão, Lisboa, Arcádia, 1963
Festa Pública, in A Antologia em 58, Mário Cesariny (dir.), Lisboa, 1958 (L. 48459 P.)
Rainhas Cláudias ao Domingo, Fundão, Jornal do Fundão, 1972 (L. 76757 P.); reeditado por Contexto, Lisboa, 1982 (imp.)
Relógio de Cuco, Lisboa, Estampa, 1973 (869.0-3 MA,V(1) ) ou (L. 87757 P.)
A Caça, Porto, Afrontamento, 1974
O Grande Cidadão, Lisboa, Arcádia, 1976 (L. 55074 P.)
O Concerto das Buzinas, Lisboa, Seara Nova, 1979 (869.0-3 MA,V)
O Menino Novo, Lisboa, Edição de Autor, 1989 (L. 40536 V.)

sábado, junho 21, 2003

COITADO DO TEATRO PORTUGUÊS

No Suplemento "Y" do jornal Público (edição de ontem), Joana Gorjão Henriques cita algumas opiniões de Nuno Artur Silva (Produções Fictícias) sobre o teatro português. Lê-se:
"O teatro português tem vindo a perder o pudor de fazer rir. Têm-se esbatido fronteiras entre «mainstream» e teatro alternativo. Apareceram projectos que nem são para minorias nem são comerciais, mas uma mistura. (...) A dramaturgia portuguesa é frágil. Todos os textos contemporâneos, com honrosas excepções - por exemplo, "António Um Rapaz de Lisboa", de Jorge Silva Melo - estão desligados do que as pessoas estão a viver. O que é interessante é que o teatro escreva o correr dos dias. Falta esta pulsação, as inquietações do Portugal de hoje." (sublinhados meus).
Hoje, na Livraria Eterno Retorno, às 22 horas, lê-se um excerto de uma peça minha - ALQUIMIA. Gostaria que o Nuno Artur Silva lá estivesse. Igualmente para a Joana Gorjão Henriques. Não sei rezar, alguém que o faça por mim. Obrigado.

CRÍTICA (1)

Nos últimos meses, a imprensa portuguesa tem dado um espaço considerável a polémicas sobre a crítica de poesia. Mais espaço, julgo eu, que muitos dos textos críticos merecem, sobretudo se pensarmos que o espaço escasseia para as obras de poesia. No DNA de hoje, Pedro Mexia insurge-se contra o dossier «crítica da crítica» da revista Apeadeiro (Quasi) que, segundo ele, não passa de um conjunto de prosas «rancorosas e agressivas». Não li o dito dossier e não pretendo tomar partido por ninguém. Mas não pude deixar de me lembrar de Blanchot. Aproveito, por issso, para relembrar um texto deste autor e partilhá-lo aqui (leitura realizada para o meu livro Teatro da Cornucópia. As Regras do Jogo, Lisboa, frenesi, 1999).Sem mais comentários:

Num pequeno texto da década de cinquenta (Maurice Blanchot, «La condition critique», Trafic, Revue de Cinéma, Paris, nº 2, Printemps 1992: 140-142. O texto foi originalmente publicado em L’Observateur, nº 6, de 18 de Maio de 1950), Blanchot reflecte sobre a necessária impureza da crítica e em como nessa impureza se revela justamente a sua razão de ser.
Blanchot coloca uma questão essencial que importa desde já nomear: a relação conflitual entre a obra de arte e a crítica, um antagonismo entre a obra como fechamento e a crítica como desvendamento.
Se as obras são de uma infinita solidão, como dizia Rilke, nada há pior para elas do que a crítica ao chamar a atenção sobre as obras, ao fazê-las sair desse ponto de fascinante discrição onde elas se formaram e onde gostariam de se fechar, ao abrigo de toda a curiosidade pública. Mas a crítica é uma força que passa rápida e na força da sua soberania introduz sem precauções as obras nas mãos do mundo.
A essência do crítico moderno é ele estar ligado ao instante, à acção, ao quotidiano fugitivo, à instantaneidade. O crítico não deve ter arte própria nem talento pessoal, ele não deve ser o centro. É certamente um olhar, mas um olhar anónimo, impessoal, vagabundo.
A obra, na sua intimidade fechada, é ciumenta, desejosa de negar o exterior: a tarefa da crítica não pode deixar de ser a de seu antagonista. Mas para contrariar a obra de arte a crítica deve ao mesmo tempo aproximar-se dela, de a compreender, de a trair, não porque não a compreenda, mas exactamente porque ela é um esforço muito grande de compreensão. Mas a interpretação mais fiel é também a mais infiel, porque ele expõe completamente a obra à verdade do dia banal quando a natureza da obra é a de escapar à verdade. O crítico que se devote excessivamente à intimidade da arte acaba por mergulhar na sua obscuridade e por negar-se a si próprio. Deixa de existir a vontade maldosa ou caprichosa momentânea que ilumina por breves instantes um livro (ou o negligencia) e dele tira o que quer. Torna-se numa boa vontade assídua que ama a cultura, que ama os livros, os respeita e os salva, uma submissão sem limites à compreensão, uma espécie de generosidade insípida, uma vida inteira fechada nos limites dos livros e completamente consagrada a estudá-los, a louvá-los, a enriquecê-los, a fazê-los durar e, finalmente, a elevá-los ao céu sublime do intemporal: estranho encantamento. Esta relação, contudo, só alcança a sua verdade no momento em que crítico e arte se confundem, quando o que chamamos consciência criativa aceita perder-se no olhar superficial do quotidiano e se afirma cúmplice da preocupação que antes desprezava. Se daqui resulta uma infeliz confusão ou um consentimento estéril não importa. O importante é que o criador abandone a grande vanidade para onde a criação o lança e se declare solidário do presente transitório que a crítica sem futuro lhe assegura.

sexta-feira, junho 20, 2003

TEATRO EM PORTUGUÊS NO BAIRRO ALTO

No dia 16, na Livraria Ler Devagar, começou uma maratona de leituras de textos para teatro de dramaturgos portugueses. Chama-se Ciclo de Autores Dramáticos no Bairo Alto e é uma iniciativa da Livraria Eterno Retorno, em colaboração com a citada Ler Devagar e com o bar Clube dos Poetas Vivos. Filomena Oliveira e Miguel Real deram início ao Ciclo com a leitura de O UMBIGO DE RÉGIO. No dias seguintes, sempre na Eterno Retorno e sempre às 22 horas, seguiram-se Possidónio Cachapa (HIPNOTIZANDO HELENA), Jaime Rocha (QUINZE MINUTOS DE GLÓRIA) e Abel Neves (PERTINHO DA TORRE EIFFEL). Hoje é a vez de Armando Nascimento Rosa (NÓRIA E PROMETEU - PALAVRAS DE FOGO); amanhã, o escriba destas linhas, com ALQUIMIA. Seguem-se os dramaturgos Joaquim Paulo Nogueira, Hélder Costa, Carlos Jorge Pessoa, José Carretas e Teresa Faria, Maria do Céu Ricardo, Luís Fonseca, Graça Corrêa, Pedro Marques, Gonçalo M. Tavares, João Santos Lopes e Jaime Salazar Sampaio. Às leituras seguem-se conversas. Pelo que pude observar nas primeiras 3 noites, são conversas animadas, interessadas e interessantes. Mas não têm sido muitos os participantes fora do círculo de amigos e conhecidos dos dramaturgos e actores e os frequentadores habituais das 2 livrarias. Embora seja parte envolvida, não posso deixar de pensar que muito teriam a ganhar todos os criadores teatrais portugueses em participar nesta iniciativa. Até ao dia 29 ainda é possível.

A TRAGÉDIA DE BROOK

Ontem: La Tragédie d'Hamlet, de Shakespeare, adaptação e encenação de Peter Brook (no Teatro Maria Matos, em Lisboa). Sala, lotada, sem sistema de climatização - um grande, enorme sofrimento. Um actor de eleição: Bruce Meyers. Dois grandes actores: Habib Dembélé e William Nadylam.



Hoje: Augusto M. Seabra no Público: "«La Tragédie d'Hamlet» é um espectáculo que da opção multicultural retém sobretudo sinais ostentatórios, senão mesmo estereótipos como quaisquer outros. Donde, a perplexidade." Subscrevo. Embora muito fique ainda por dizer sobre o teatro multicultural - que não se resume à mistura de criadores com diferentes origens geográficas e culturais.

ALQUIMIA

Alquimia, de Carlos Alberto Machado { em construção - junho de 2003 }
Leitura pública de excerto da peça Alquimia, com os actores Vitor Soares, Carlos Oliveira e Sílvia Barbeiro, seguida de conversa. Na Livraria Eterno Retorno (ao Bairro Alto, em Lisboa), 21 de Junho de 2003 (22 Horas).

ALQUIMIA é um texto para teatro, de Carlos Alberto Machado, baseado em textos narrativos de Virgílio Martinho. O presente excerto é uma adaptação de Rainhas Cláudias ao Domingo (Jornal do Fundão, 1972) e foi preparado para esta Leitura Pública.

Personagens: Virgílio/Narrador - Virgílio - Sofia

Sei, escrevo hoje e invento-me,
estou presente no emaranhado das coisas da memória.

Virgílio Martinho

VIRGÍLIO/NARRADOR:
Ela estava numa rua pouco iluminada. Miúda e enfiada, muito pálida. Parei e quis dizer-lhe mulher queda em sossego, doce fruto meu mas não disse. Disse-lhe
VIRGÍLIO: Tens uma cama?
SOFIA: Tenho, mas primeiro passa para cá a massa.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
A voz dela era uma voz de rapariga quente, soava no sítio certo, tinha formigas. Apertei-lhe as mãos e beijei-as.
SOFIA: Não me digas que és desses, dos bons?! Dos que se deitam em camas que lhes pertencem, e, oh, é sempre a mesma!
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Eu mendigava um buraco no escuro nocturno. Mas estava ainda no silêncio.
SOFIA: Então?! Ganho a minha vida, ouviste? Ou julgas que vivo do ar?
VIRGÍLIO: Podíamos ser amigos.
SOFIA: Ora, amigos, se me passares a massinha seremos mais do que isso! Tás a ouvir?! Passo as minhas necessidades como toda a gente, ou tu julgas que isto é só gozo?
VIRGÍLIO: Não queres vir?
SOFIA: Andas à pesca duma que caia?
VIRGÍLIO/NARRADOR:
E as mãos dela debaixo dos meus sovacos e depois a descerem lentamente...
SOFIA: Chiça, até tremes!
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Tremia, sim, tremia. Rouco e percorrido de certa moleza como vossas excelências quando vão prá cama com a vossa querida.
SOFIA: Se calhar tás a pensar na coisa à borla, é? Claro, é o costume, espatifaste a massa e agora queres a coisa por amor.
Sofia começa a andar.
VIRGÍLIO: Ouve...
SOFIA: Nunca te vi por aqui, de onde é que saíste?
VIRGÍLIO: De lado nenhum. Uma bebedeira, vim daí. Sabes, uma velha disse que eu precisava de mãe e apalpou-me entre a pernas, achas bem?
SOFIA: Ora! E antes da bebedeira?
Chegam às escadas de uma pensão.
VIRGÍLIO: Tenho andado por aí, sou um rapazinho.
SOFIA: Isso vejo eu. Quero saber é donde vieste, com quem lidas…
VIRGÍLIO: Merda de pergunta… não sei… da barriga da minha mãe… tá bem?
SOFIA: E o dinheirinho? E dinheiro, menino?
VIRGÍLIO: Uns trocos…
SOFIA: ... que nem pró quarto chegam...
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Mas eu não a queria perder, não podia.
VIRGÍLIO: Se pudesses...
SOFIA: Posso. Passa para cá o dinheiro que tens.
Entram na pensão.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Virou-se para mim e encostou a boca ao meu coração e falou-me como quem diz um segredo grave.
SOFIA: Não digas a ninguém que vou contigo à borla, depois os outros aproveitam-se.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Já nem a ouvia, beijava-lhe o pescoço, comia-lhe os cabelos, sentia no nariz os pêlos do casacão dela, no queixo a anatomia magricela do seu rosto. Não conseguia falar, tremia de amor como nos acontece... E ela calma e divertida, tinha experiência destes anseios, deixava fazer...
SOFIA: Tou farta de ser enganada por tipos de falinhas mansas como tu. Tou, sabes?, umas vezes por querer, outras sem querer...
VIRGÍLIO: ... E não devias estar?
SOFIA: Claro que não devia estar, uma pessoa não faz isto por prazer!
VIRGÍLIO: Não faz?
SOFIA: Não, os homens é que fazem sempre, duas bombadas, já está!
Outro silêncio. Este grave.
SOFIA: Se tivesses dinheiro havias de ver o que a gente fazia...
VIRGÍLIO: E não tenho?
SOFIA: (Rindo-se) Não tens mas quase me furas de lado a lado.
Entram num quarto.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Nua parecia uma criança. Criança nas nádegas, criança nas linhas quase imperceptíveis dos quadris que se perdiam nas sombras dos sovacos. Os seus ossos da espinha podiam contar-se um a um.
VIRGÍLIO: Tinha o teu corpo por volta dos meus dez anos.
SOFIA: Com tudo o que tenho?
VIRGÍLIO: Com tudo não, sem as coisas de mulher que tens.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Ela ria-se e eu especado, ainda vestido. E ria também. As maminhas dela, que cabiam à vontade nas palmas das minhas mãos, tremelicavam com o riso.
SOFIA: Boneco!, mosquinha morta!, queres fazer a coisa vestido? Vá, anda, não vês que quero festejar? Não vês? (pausa) A tua inocência, passarinho!
VIRGÍLIO: Oh, a minha inocência, julgas que é a primeira vez?
SOFIA: (Goza com ele) Estou agarrada a ti quando tinhas dez anos e não sinto nada, não sinto nada. (pausa) É por eu ser assim magricelas que não queres?
VIRGÍLIO: Não sou inocente.
SOFIA: Eu sei, percebi logo!
VIRGÍLIO/NARRADOR:
E depois fizemos o que vossas excelências sabem que se faz.
VIRGÍLIO: Não queres outra vez? (silêncio) Gostava de ficar aqui contigo.
SOFIA: Não pode ser, já te fiz o gosto, agora c’est fini. (pausa) Gostaste de mim? (depois empurra-o, ele cai de costas na cama e ela ri, vai dizendo aos poucos, entre o arfar do riso) Sabes, se estivesse abonada tudo se resolvia.
VIRGÍLIO: Podes dizer ao dono disto que se paga depois.
SOFIA: Não digo, ele é um bicho, um aleijado, percebes? E os aleijados são maus, não gostam de ninguém. (silêncio) Queres ficar porque gostaste de mim ou porque tás estoirado?
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Não lhe respondi; fiquei encostado à cabeceira da cama a esburacar o umbigo, talvez sem dar por isso.
SOFIA: Veste-te, então.
Saem do quarto. Está frio na rua.
SOFIA: Que mosca te mordeu?
VIRGÍLIO: Aquilo cheirava mal. Vamos para um jardim.
Sofia concorda, sem dizer nada. Vão para um pequeno jardim.
SOFIA: Eh!, vamos perder a noite, namorado, tá bem?
VIRGÍLIO: Tá bem! Vamos gozar tudo o que pudermos!
VIRGÍLIO/NARRADOR:
E beijei-a.
SOFIA: Na rua, não.
VIRGÍLIO: Queria estar contigo.
SOFIA: Temos tempo, somos novinhos em folha.
VIRGÍLIO: (Com raiva) Somos agora novos, miúda!
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Porque de repente vi os anos todos, desde a mãe, desde o vagido inicial, e como lancetadas as chatices todas, uma a uma.
VIRGÍLO: Merda para isto! Falta-nos tudo!
SOFIA: (Sorrindo) Tu és um velho, eu sou centenária, pronto.
VIRGÍLIO: (Exaltado) Tá bem, tá bem.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Meti-lhe a mão pelo vestido dentro e deixei-a ficar no quente das mamas dela, e ela pôs a sua nas minhas partes, continuando como se nada fosse, as cabeças encostadas, imóveis ali, sérios, a noite uma cúpula indiferente lá no alto, as persianas fechadas, até que expeli mais uma vez as minhas viris humidades e o cheiro a semente fê-la suspirar.
SOFIA: Quem me dera ser homem, porque vocês deitam fora, libertam-se, enquanto nós, as rachas, acumulamos, somos caixotes...
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Até que também ela se elevou nos balidos de quem se vem no mundo, de quem usa o corpo!
VIRGÍLIO: Vens-te no mundo!
SOFIA: As vigilantes do asilo onde cresci batiam palmas a propósito de tudo, queres saber como? (e executa enquanto explica) para comermos uma vez, para irmos à retrete duas vezes, para dormirmos três vezes...
VIRGÍLIO: ... embora passar a noite no cais?
SOFIA: Tá bem.
Pontão de um cais.
VIRGÍLIO: Vou contar-te histórias.
SOFIA: Que histórias? Aquece-me.
VIRGÍLIO: Está um rosto no céu.
SOFIA: Onde? não vejo nada, só estrelas, e “as estrelas são pescadoras e andam à procura de gente”.
VIRGÍLIO: Um rosto ali, olha, nas nuvens, olha, os buracos dos olhos, os outros do nariz, o volume do queixo e... os malares e a testa. É um rosto para o sol entrar por ele quando nascer, ainda falta um pouco.
SOFIA: Tenho frio, aquece-me.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Aquecemo-nos mutuamente. Pernas a balançar no vazio, entre o líquido e o gasoso.
SOFIA: Aqui é o fim da terra, o começo do oceano.
VIRGÍLIO: E lá longe, muito longe, a viagem. (silêncio) Vais dormir? É quase dia.
SOFIA: (Resmunga).
VIRGÍLIO: O rosto desapareceu do céu, levou-o o vento da manhã, a primeira luz. (pausa) Cá estamos vivos.
SOFIA: (Resmunga de novo).
VIRGÍLIO: Estás gelada. Uma vida inteira aqui e ficávamos de pedra, sabes?, de pedra.
SOFIA: Quero o sol.
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Estava um “dia algodoado de nuvens marinhas”.
E passou um marinheiro a desejar o sol.
SOFIA: (Segreda) Marido, o povo acordou.
VIRGÍLIO: Tenho fome, e tu?
SOFIA: Somos crianças, sabes? E as massas para comer?
VIRGÍLIO: Pois, não há. Estás da cor da morte, miúda.
SOFIA: Queres ver como fico corada?
VIRGÍLIO/NARRADOR:
Despiu o casacão e ajoelhou-se no último degrau do pontão. Puxou as saias até ao ventre, curvada para as águas, nossa senhora a parir. Lavou o rosto. Contente, pela súbita comunhão de frio e renascimento. E eu voltei a olhá-la, atraído por aquele campo magnético que ela era.
SOFIA: Olhas-me como se eu fosse morrer!
VIRGÍLIO: E não vais?


A RAIVA DE ROLO

No DNA de 14 de Junho, o seu director, Pedro Rolo Duarte, resolveu eleger a revista Periférica como seu alvo jornalístico.

Considera Duarte que a Periférica é "um dos sinais da geração a que Vicente Jorge Silva chamou «rasca»". E seguem os epítetos: "ignorantes", "arrivistas", por aí. A estes e outros mimos recebidos o pessoal da Periférica já deu o devido tratamento - com humor. Eu, que já ultrapassei a idade da "rasca", tenho esperanças que os seus membros não cheguem à idade de Duarte a expelir o que há de pior no coração, cabeça e intestinos: raiva e ódios acumulados. E às cegas.

sexta-feira, junho 13, 2003

CINCO POEMAS

de Carlos Alberto Machado

publicados na Revista Periférica

Nº 5, Primavera de 2003

Palavras a mais talvez não sei não importa
e a memória dos rostos também me atraiçoa
apenas guardo a marca de certos movimentos
passei o jantar a olhar as sombras no teu pescoço
descendo até ao ponto mais claro onde os seios luziam
e agora sem registo seguro de medição ou cálculo
vou procurar no sonho a música do que dizer
mas passado um pouco sei que vou despertar
antes do tempo se algum tempo há no sonhar
a penumbra desce e tudo se move mais lentamente
(é com os olhos abertos de incerteza que tudo nasce?)
levanto a camisa e os meus olhos reconhecem
novo sulco aberto por onde o tempo se esvai
depois quando escurece chego-me à frente
e imagino começar tudo de novo.


A noite apagou também o brilho das palavras é mentirosa
a metáfora do brilho das palavras na noite o melhor
do mar vai-se na espuma não nas ondas que se vão talvez
o melhor ainda seja arrancar unhas e escavar fundo
ou deixá-las crescer até se curvarem sobre si próprias
começar por dentro e fundo o dilaceramento não sei
se o cansaço é isto ou apenas sol a mais nos meus olhos.


A minha casa parece-se com os domingos aos domingos
parece que é recorrente as casas parecerem-se com os domingos
quando as casas aos domingos se enchem do que não há
nos outros dias da semana os dias em que se conspira
para apagar da criação o último dia da semana inútil
como são todos os dias em que não há nada para fazer
senão esperar voltar ao princípio e começar tudo de novo.


Tomei uma dose suplementar de credulidade de marca registada
o médico não me quis receitar um medicamento genérico o perigo
está parece na ausência de testes suficientes sobre os efeitos
secundários de uma solução tão geral para problemas singulares
por exemplo no meu caso o de acreditar aliás não acreditar
que há uma diferença crucial entre um momento e o que se lhe segue
o problema é grave disse-me o médico mas isso já eu sabia.


E chego agora ao fim sem saber ainda como te cantar
sem saber como receber-te na humidade das palavras
sem saber como aninhar cada palavra na concha do teu corpo
sem saber a brisa por onde vai o teu olhar à minha mão
passo a noite ao relento a sussurrar o teu nome vazio
mas nomear-te ainda não é conhecer-te
todavia a luz.