Por vezes há palavras que procuram uma cumplicidade subterrânea. Disseminação.
«Ainda bem que partes:
já me sobram mais afagos
para o gato, mais espaço
nas gavetas e nas horas;
com os lenços que deixaste
posso pôr em cacos limpos
o restante coração.
Ainda bem que partes:
regresso menos cedo
às arestas do lençol,
acrescento um cobertor;
divirto-me a escolher
em que lado da parede
não irei adormecer.
Ainda bem que partes:
dura mais o sabonete
a graxa dos sapatos,
o sal e o Domingo;
só o gin, tem piada,
dura menos.»
José Miguel Silva, do "Ciclo do Sal" (O SINO DE AREIA, Porto, Gilgamesh, 1999: 35)
quarta-feira, julho 09, 2003
domingo, julho 06, 2003
A BOCA NA CINZA
Tereza Coelho entrevistou ontem Rui Nunes no suplemento Mil Folhas do Público. O meu campo de afectos, onde não uso pesticidas, cresceu mais um pouco.
«Nós encobrimos o que é feio, o que é dissonante, o que é áspero - andamos sempre a limpar o mundo de tudo isso. Uns de uma maneira menos violenta, outros violentamente - foi isso que fez Hitler, limpou o mundo. Quando ouço fazer a apologia da beleza e da saúde, fico muito perturbado. Porque é a apologia da "limpeza", e isso é terrífico. A apologia do poema bonito, a apologia da frase harmoniosa... estremeço. No fundo, atrás disso vêm todas as outras coisas, e vem também a violência. O terrorismo da beleza.
Quase todas as pessoas que praticam isso fazem a apologia disso, e estão sempre a confrontar o que os outros fazem, ou escrevem, com isso, ou o que os outros são com o padrão colectivo. Quem não faz isso é afastado. É segregado, como os anões são segregados, como os surdos, como os mudos são segregados. E o que fica é um mundo que se quer sem mácula. Eu tenho horror à ausência de mácula. (...) A escrita, para mim, não é uma forma de atenuar, é um gesto, e eu queria que cada palavra fosse um gesto e não mais do que um gesto, com a violência do gesto, a rudeza. (...) O outro tipo de violência é quando a própria palavra é a violência do discurso, a palavra não diz a violência: e é ela própria violência. Aí, as pessoas afastam-se, repugnadas.»
«Nós encobrimos o que é feio, o que é dissonante, o que é áspero - andamos sempre a limpar o mundo de tudo isso. Uns de uma maneira menos violenta, outros violentamente - foi isso que fez Hitler, limpou o mundo. Quando ouço fazer a apologia da beleza e da saúde, fico muito perturbado. Porque é a apologia da "limpeza", e isso é terrífico. A apologia do poema bonito, a apologia da frase harmoniosa... estremeço. No fundo, atrás disso vêm todas as outras coisas, e vem também a violência. O terrorismo da beleza.
Quase todas as pessoas que praticam isso fazem a apologia disso, e estão sempre a confrontar o que os outros fazem, ou escrevem, com isso, ou o que os outros são com o padrão colectivo. Quem não faz isso é afastado. É segregado, como os anões são segregados, como os surdos, como os mudos são segregados. E o que fica é um mundo que se quer sem mácula. Eu tenho horror à ausência de mácula. (...) A escrita, para mim, não é uma forma de atenuar, é um gesto, e eu queria que cada palavra fosse um gesto e não mais do que um gesto, com a violência do gesto, a rudeza. (...) O outro tipo de violência é quando a própria palavra é a violência do discurso, a palavra não diz a violência: e é ela própria violência. Aí, as pessoas afastam-se, repugnadas.»
sábado, julho 05, 2003
GESTÃO CULTURAL
Para os senhores e senhoras que "gerem" a nossa "cultura", este textinho anónimo (dizem-me que há versões mais sofisiticadas mas que não são aconselháveis aos neurónios dos ditos: as suas leituras não vão além dos livrinhos da Dona Margarida):
Sinfonia Inacabada, de Franz Schubert
Um administrador, adepto de primeira hora da doutrina neoliberal, ganhou um convite para assistir a um concerto da Sinfonia Inacabada de Franz Schubert. Como estivesse impossibilitado de comparecer, deu o convite ao seu gerente de Organização, Sistemas e Métodos. Na manhã seguinte, o administrador perguntou-lhe se tinha gostado do concerto. Ao invés de comentários sobre o que ouvira e vira, recebeu o seguinte Relatório:
Circular Interna nº 13/98
De: Gerência de Organização, Sistemas e Métodos
Para: Directoria
Ref: Sinfonia Inacabada
1 - Por um período considerável de tempo, os músicos com oboé, não tinham nada para fazer. O seu número deveria ser reduzido e o seu trabalho redistribuido pelos restantes membros da orquestra, evitando-se assim estes picos de inactividade;
2 - Todos os violinos da primeira secção, doze ao todo, tocavam notas idênticas. Isso parece ser uma duplicação desnecessária de esforços e o número de violinos nessa secção deveria ser drasticamente reduzido. Se for necessário um volume de som alto, isso poderia ser obtido através do uso de um amplificador;
3 - Muito esforço foi despendido ao tocarem semitons. Isto parece ser um preciosismo desnecessário e seria recomendável que as notas fossem executadas no tom mais próximo. Se isso fosse feito, poder-se-iam utilizar estagiários em vez de profissionais;
4 - Não há utilidade prática em repetir com os metais a mesma passagem já tocada pelas cordas. Se toda esta redundância fosse eliminada, o concerto poderia ser reduzido de duas horas para apenas vinte minutos;
5 - Enfim, resumindo as observações dos pontos anteriores, podemos concluir que se Schubert tivesse dado um pouco de atenção a estes pontos, talvez tivesse tido tempo para acabar a sua sinfonia inacabada.
Sinfonia Inacabada, de Franz Schubert
Um administrador, adepto de primeira hora da doutrina neoliberal, ganhou um convite para assistir a um concerto da Sinfonia Inacabada de Franz Schubert. Como estivesse impossibilitado de comparecer, deu o convite ao seu gerente de Organização, Sistemas e Métodos. Na manhã seguinte, o administrador perguntou-lhe se tinha gostado do concerto. Ao invés de comentários sobre o que ouvira e vira, recebeu o seguinte Relatório:
Circular Interna nº 13/98
De: Gerência de Organização, Sistemas e Métodos
Para: Directoria
Ref: Sinfonia Inacabada
1 - Por um período considerável de tempo, os músicos com oboé, não tinham nada para fazer. O seu número deveria ser reduzido e o seu trabalho redistribuido pelos restantes membros da orquestra, evitando-se assim estes picos de inactividade;
2 - Todos os violinos da primeira secção, doze ao todo, tocavam notas idênticas. Isso parece ser uma duplicação desnecessária de esforços e o número de violinos nessa secção deveria ser drasticamente reduzido. Se for necessário um volume de som alto, isso poderia ser obtido através do uso de um amplificador;
3 - Muito esforço foi despendido ao tocarem semitons. Isto parece ser um preciosismo desnecessário e seria recomendável que as notas fossem executadas no tom mais próximo. Se isso fosse feito, poder-se-iam utilizar estagiários em vez de profissionais;
4 - Não há utilidade prática em repetir com os metais a mesma passagem já tocada pelas cordas. Se toda esta redundância fosse eliminada, o concerto poderia ser reduzido de duas horas para apenas vinte minutos;
5 - Enfim, resumindo as observações dos pontos anteriores, podemos concluir que se Schubert tivesse dado um pouco de atenção a estes pontos, talvez tivesse tido tempo para acabar a sua sinfonia inacabada.
MUDAM-SE AS MOSCAS... ou ZANGAM-SE AS COMADRES... (2)
Comentário do Joaquim Paulo Nogueira (jpn@sapo.pt) ao conteúdo do meu post MUDAM-SE AS MOSCAS... ou ZANGAM-SE AS COMADRES..., de Julho/02:
«a) Comadres? Amaral Lopes e João Grosso? Hum! Nã! Assumo a minha discordância pela estratégia do João Grosso face à formação, através da sua (con)centração de encenadores e actores, c'os diabos, à Casa de A.Garret tem de se pedir mais sobre a dramaturgia portuguesa, e além do mais é de uma grande miopia não perceber que o novo relacionamento entre os dramaturgos e o teatro português contemporâneo tem passado por uma nova atitude na relação entre estes e os encenadores e actores mais jovens, já dizia o Redondo Júnior, como é que ele dizia? como é que ele dizia? pois "A juventude pode salvar o teatro!", mas meter no mesmo saco Amaral Lopes e João Grosso é de uma falta de discernimento que nem se pode deixar respirar um segundo que seja. Blogs à parte, se isto é tudo igual, se nada distingue coisa nenhuma, vamos é colocar a tranca na porta, desistir, fazermos um lopping dos diabos sobre a ponte sobre o Tejo, ponte 25 de Abril, sim, claro, porque esta coisa de nos estarmos a matar aos poucos com aguarás e diluente é pior que uma telenovela das sete. Já disse, tá dito! Um abraço, Carlos.
b) "acrescentando ter a garantia do ministro de que a situação seria "resolvida o mais rapidamente possível".
1. Sir Humprey do "Sim, Senhor Ministro", não diria melhor do que que aquilo que este Ministro garantiu a Paulo Cunha e Silva. Presume-se que sim. Que na sua lentidão crassa o processo está a andar o mais rapidamente possível. Faz parte da própria ideia de serviço público. Não vejo muito o Pedro Roseta a poder dizer que a situação vai ser "resolvida o mais lentamente possível".
2. O que é preciso dizer desde já a alguém que tem a pretensão tão louvável como meritória de ser o provedor dos artistas e da criação, é que ao nosso provedor pede-se que seja uma espécie de voz dos artistas e da criação - voz política, sem dúvida, não será de afonismo que a arte e os artistas vivem - ou seja que faça aquelas perguntas que quem está há seis meses, e entrámos no mês sete, se coloca:
- como é possível que o mais rapidamente possivel seja seis meses de atraso? (nem sempre foi assim. Num passado recente já foi possivel pagar as contribuições do Estado à Criação Teatral a horas atempadas (mais ou menos certas, não nascemos com o Big-Ben na alma, um pouco de folclore e tradição pópular não faz mal a ninguém);
- o que é que deixou de ser possível para só ser possivel assim?
- quem é que vai ser responzabilizado? quem é que nos serviços do Ministério da Cultura acha que " o mais rapidamente possível" não pode ser assim tão depressa....tem de ser assim...como assim...bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
- é claro que o Sr. Ministro ainda não achou por bem assumir as responsabilidades disso...embora, se calhasse em conversa, o nosso provedor até lhe devia dizer que a nós achamos que ele é o primeiro responsável, pelo menos politicamente, por isso...e que deve haver mais, não tão politicamente...
3. Quanto ao resto, Paulo Cunha e Silva promete. É preciso uma ideia de serviço público para o IA. E vem pôr um bocadinho de colorido nisto tudo. Só por isso já levaria o meu aplauso. É pena é que, se mantiver a palavra, tomará posse tão rapidamente quanto possivel.»
«a) Comadres? Amaral Lopes e João Grosso? Hum! Nã! Assumo a minha discordância pela estratégia do João Grosso face à formação, através da sua (con)centração de encenadores e actores, c'os diabos, à Casa de A.Garret tem de se pedir mais sobre a dramaturgia portuguesa, e além do mais é de uma grande miopia não perceber que o novo relacionamento entre os dramaturgos e o teatro português contemporâneo tem passado por uma nova atitude na relação entre estes e os encenadores e actores mais jovens, já dizia o Redondo Júnior, como é que ele dizia? como é que ele dizia? pois "A juventude pode salvar o teatro!", mas meter no mesmo saco Amaral Lopes e João Grosso é de uma falta de discernimento que nem se pode deixar respirar um segundo que seja. Blogs à parte, se isto é tudo igual, se nada distingue coisa nenhuma, vamos é colocar a tranca na porta, desistir, fazermos um lopping dos diabos sobre a ponte sobre o Tejo, ponte 25 de Abril, sim, claro, porque esta coisa de nos estarmos a matar aos poucos com aguarás e diluente é pior que uma telenovela das sete. Já disse, tá dito! Um abraço, Carlos.
b) "acrescentando ter a garantia do ministro de que a situação seria "resolvida o mais rapidamente possível".
1. Sir Humprey do "Sim, Senhor Ministro", não diria melhor do que que aquilo que este Ministro garantiu a Paulo Cunha e Silva. Presume-se que sim. Que na sua lentidão crassa o processo está a andar o mais rapidamente possível. Faz parte da própria ideia de serviço público. Não vejo muito o Pedro Roseta a poder dizer que a situação vai ser "resolvida o mais lentamente possível".
2. O que é preciso dizer desde já a alguém que tem a pretensão tão louvável como meritória de ser o provedor dos artistas e da criação, é que ao nosso provedor pede-se que seja uma espécie de voz dos artistas e da criação - voz política, sem dúvida, não será de afonismo que a arte e os artistas vivem - ou seja que faça aquelas perguntas que quem está há seis meses, e entrámos no mês sete, se coloca:
- como é possível que o mais rapidamente possivel seja seis meses de atraso? (nem sempre foi assim. Num passado recente já foi possivel pagar as contribuições do Estado à Criação Teatral a horas atempadas (mais ou menos certas, não nascemos com o Big-Ben na alma, um pouco de folclore e tradição pópular não faz mal a ninguém);
- o que é que deixou de ser possível para só ser possivel assim?
- quem é que vai ser responzabilizado? quem é que nos serviços do Ministério da Cultura acha que " o mais rapidamente possível" não pode ser assim tão depressa....tem de ser assim...como assim...bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
- é claro que o Sr. Ministro ainda não achou por bem assumir as responsabilidades disso...embora, se calhasse em conversa, o nosso provedor até lhe devia dizer que a nós achamos que ele é o primeiro responsável, pelo menos politicamente, por isso...e que deve haver mais, não tão politicamente...
3. Quanto ao resto, Paulo Cunha e Silva promete. É preciso uma ideia de serviço público para o IA. E vem pôr um bocadinho de colorido nisto tudo. Só por isso já levaria o meu aplauso. É pena é que, se mantiver a palavra, tomará posse tão rapidamente quanto possivel.»
sexta-feira, julho 04, 2003
CONVERSAR SOBRE TEATRO (3)
No blog CRUZES CANHOTO (29 de Junho de 2003), saiu a seguinte prosa sobre o tema dos subsídios ao teatro: obrigado.
«Já ando há tempos para falar dos subsídios do teatro. À direita diz-se que a arte devia sobreviver por si própria, agradar ao público, dar lucro. Esta posição ignora todo o exemplo do passado. São múltiplos os casos de arte que na sua estreia foi um desaire financeiro e hoje é um alicerce cultural (Carmen, de Bizet, só para dar o exemplo mais conhecido e dramático). Também todos sabemos que a maioria da arte que se produziu no passado não foi sustentada pela afluência do público, mas por patronos abastados e mecenas: Bach, Shakespeare, Camões, Gaudí, precisaram de financiamento de terceiros para poder produzir as suas obras-primas. Por isso, restringir o financiamento da arte ao público é perfeitamente absurdo, e terá sempre de haver alguém disposto a financiar obras mais arrojadas sem temer prejuízos financeiros. Se os subsídios estatais não são o ideal, devido aos concursos públicos e peso burocrático, talvez a única solução passasse por maiores incentivos às empresas e particulares para servirem de mecenas. Mas há, claro, um importante entrave a isto: a pouca visibilidade do teatro, que afugenta as empresas ansiosas por publicidade para outras regiões mais atléticas. A solução que eu preconizava seria financiamento parcialmente público das companhias, devendo estas complementar o dinheiro com receitas da venda de bilhetes. Deste modo, mesmo que tivessem de alternar peças mais sofisticadas com outras mais comerciais, as companhias conseguiriam uma autonomia económica que as imunizaria a épocas de crise generalizada ou governos filisteus como o actual. J.»
«Já ando há tempos para falar dos subsídios do teatro. À direita diz-se que a arte devia sobreviver por si própria, agradar ao público, dar lucro. Esta posição ignora todo o exemplo do passado. São múltiplos os casos de arte que na sua estreia foi um desaire financeiro e hoje é um alicerce cultural (Carmen, de Bizet, só para dar o exemplo mais conhecido e dramático). Também todos sabemos que a maioria da arte que se produziu no passado não foi sustentada pela afluência do público, mas por patronos abastados e mecenas: Bach, Shakespeare, Camões, Gaudí, precisaram de financiamento de terceiros para poder produzir as suas obras-primas. Por isso, restringir o financiamento da arte ao público é perfeitamente absurdo, e terá sempre de haver alguém disposto a financiar obras mais arrojadas sem temer prejuízos financeiros. Se os subsídios estatais não são o ideal, devido aos concursos públicos e peso burocrático, talvez a única solução passasse por maiores incentivos às empresas e particulares para servirem de mecenas. Mas há, claro, um importante entrave a isto: a pouca visibilidade do teatro, que afugenta as empresas ansiosas por publicidade para outras regiões mais atléticas. A solução que eu preconizava seria financiamento parcialmente público das companhias, devendo estas complementar o dinheiro com receitas da venda de bilhetes. Deste modo, mesmo que tivessem de alternar peças mais sofisticadas com outras mais comerciais, as companhias conseguiriam uma autonomia económica que as imunizaria a épocas de crise generalizada ou governos filisteus como o actual. J.»
UNS MAIS IGUAIS QUE OUTROS
Anda pela NET um Manifesto "Pelo Teatro. Um Apelo ao Protesto (do) Público", a propósito da situação de financiamento (protelado) do Ministério da Cultura/IPAE aos grupos/companhias/criadores para este ano. O que me merece os seguintes comentários:
1 - O Manifesto não está assinado: para me solidarizar, quero fazê-lo de forma consciente - quero saber quem é (supostamente) financiado; e com que projectos/espectáculos, e com quem serão eles realizados (sempre me fez confusão que não saibamos o que se financia).
2 - O que está dito acima significa, entre outras coisas (a): que há quem - grupos/companhias/criadores - fique de fora da "dança dos subsídios"; (b): e que, portanto, a solidariedade (e o protesto) deve ser extensivo a todos, ie, aos "financiados" e aos "financiáveis" - é que estes arriscam-se, com toda a certeza, a não continuar ou a não iniciar aquilo que gostam de fazer e têm o direito de fazer, para o "público", com o apoio de quem, por dever, o deve fazer (vem na consituiçãozinha... sabem?, aquele papel onde estão os princípios que regem a vida da malta toda...); (c): como já sou um pouco "usado" nestas coisas, "cheira-me" que mal passe a "tempestade", uma malta vai fazer os seus espectáculos financiados e os outros (muitos) ficam a chupar no dedo, sem qualquer tipo de solidariedade! Nem a dos seus "colegas".
1 - O Manifesto não está assinado: para me solidarizar, quero fazê-lo de forma consciente - quero saber quem é (supostamente) financiado; e com que projectos/espectáculos, e com quem serão eles realizados (sempre me fez confusão que não saibamos o que se financia).
2 - O que está dito acima significa, entre outras coisas (a): que há quem - grupos/companhias/criadores - fique de fora da "dança dos subsídios"; (b): e que, portanto, a solidariedade (e o protesto) deve ser extensivo a todos, ie, aos "financiados" e aos "financiáveis" - é que estes arriscam-se, com toda a certeza, a não continuar ou a não iniciar aquilo que gostam de fazer e têm o direito de fazer, para o "público", com o apoio de quem, por dever, o deve fazer (vem na consituiçãozinha... sabem?, aquele papel onde estão os princípios que regem a vida da malta toda...); (c): como já sou um pouco "usado" nestas coisas, "cheira-me" que mal passe a "tempestade", uma malta vai fazer os seus espectáculos financiados e os outros (muitos) ficam a chupar no dedo, sem qualquer tipo de solidariedade! Nem a dos seus "colegas".
AMIGOS PARA SEMPRE
"O cenógrafo, figurinista e artista plástico António Lagarto é o novo responsável artístico do Teatro Nacional D.Maria II, em Lisboa, após o pedido de demissão, na passada terça-feira, do actor João Grosso do cargo de vogal artístico da Comissão de Gestão deste teatro. António Lagarto aceitou o convite do Ministério da Cultura e regressa, assim, a uma casa que conhece bem. Em Setembro de 1989, quando Ricardo Pais assumiu a direcção do teatro, Lagarto foi um dos seus subdirectores, tendo permanecido no lugar após a saída de Pais (Novembro de 1990), integrando a equipa de Agustina Bessa-Luís (até Outubro de 1993). Como cenógrafo também tem visitado com alguma regularidade a sala do Rossio _ com a companhia trabalhou, por exemplo, em Anatol (1978) de Schnitzler, Fausto. Fernando. Fragmentos. (1988) a partir de Pessoa ou Clamor (1994) de Luísa Costa Gomes, todos com encenação de Ricardo Pais. Aliás, o actual director do Teatro Nacional de São João, no Porto, é um dos encenadores com quem Lagarto mais tem colaborado: desde Ninguém _ Frei Luís de Sousa, uma produção de 1978 com Os Cómicos, até hoje _ trabalham juntos Um Hamlet a Mais, com estreia marcada para o São João no dia 23 deste mês."
(Diário de Notícias, 4 de Julho de 2003).
Ricardo Pais
REACÇÕES
"Ricardo Paes (Encenador e director do Teatro Nacional S. João). «Naturalmente, António Lagarto é muito benvindo, num momento tão difícil para a gestão dos teatros nacionais. Registo com agrado o facto de um artista com créditos na gestão cultural estar à frente de uma instituição de produção cultural.» Luís Miguel Cintra (Actor, encenador, director do Teatro da Cornucópia, que co-produz com o D. Maria II «Tito Andrónico» _ em cena no Rossio _ e «Anatomia Titus: Fall of Rome» _ a estrear na Cornucópia). «É inacreditável que não haja uma definição de política teatral para os teatros nacionais e de fomento da actividade teatral em geral. Na falta dela, é completamente irrelevante discutir nomes de pessoas.» Miguel Abreu (Actor, encenador e director artístico do Grupo Cassefaz e do Teatro Municipal Maria Matos). «Acho bem; não é que não achasse bem o João Grosso, mas, uma vez que não quer continuar, António Lagarto conhece bem o Teatro Nacional D. Maria II, já foi subdirector, trabalhou lá bastantes anos. Assim ele tenha os meios necessários para trabalhar.» João Mota (Actor, encenador e director da Comuna _ Teatro de Pesquisa). «Conheço o António Lagarto há bastantes anos e o que posso dizer é que é uma pessoa muito competente. Mas esta é a primeira vez que ele vai assumir responsabilidades de direcção artística numa companhia de teatro.» Carlos Avilez (Encenador, director do Teatro Experimental de Cascais e ex-director do Teatro D. Maria II ). «Desde que saí do D. Maria II, nunca mais fiz comentários sobre o assunto. Quanto à nomeação de António Lagarto, espero calmo, apenas como observador, mas não faço quaisquer comentários.» Lúcia Sigalho (Actriz, encenadora e directora da Companhia de Teatro Sensurround). «Não tenho por hábito comentar nomes de pessoas. Mas espero que haja rapidamente uma definição das linhas de orientação do D. Maria II. Toda a gente do teatro português está empenhada em que haja uma clarificação da situação do Teatro Nacional D. Maria II.» Jorge Silva Melo (Actor, encenador e director dos Artistas Unidos). «Neste momento estou na Alemanha e não quero comentar coisas que desconheço.»"
(Diário de Notícias, 4 de Julho de 2003).
Luís Miguel Cintra
Jorge Silva Melo
«Para o actor, encenador e director do Teatro da Cornucópia Luís Miguel Cintra, "mais do que falar sobre as pessoas que vão ocupar os cargos, interessa discutir uma filosofia global para a actividade teatral. Só depois de definida uma política global é que se pode discutir e definir a função que os teatros nacionais podem ter". Também Lúcia Sigalho, encenadora, actriz e directora da Casa dos Dias D'Água, sublinhou ontem a necessidade de definição das linhas gerais para os teatros nacionais. "É injusto falarmos das pessoas em vez de falarmos dos teatros nacionais. Reconheço-lhe um percurso seríssimo mas é preciso garantias de que a situação do D. Maria seja esclarecida. É preciso definir-se qual a função de um teatro nacional, que devia ser exemplar em termos programáticos e financeiros. Já vai no terceiro ministro sem que a situação do D. Maria se resolva."»
(Público, 4 de Julho de 2003)
(Diário de Notícias, 4 de Julho de 2003).
Ricardo Pais
REACÇÕES
"Ricardo Paes (Encenador e director do Teatro Nacional S. João). «Naturalmente, António Lagarto é muito benvindo, num momento tão difícil para a gestão dos teatros nacionais. Registo com agrado o facto de um artista com créditos na gestão cultural estar à frente de uma instituição de produção cultural.» Luís Miguel Cintra (Actor, encenador, director do Teatro da Cornucópia, que co-produz com o D. Maria II «Tito Andrónico» _ em cena no Rossio _ e «Anatomia Titus: Fall of Rome» _ a estrear na Cornucópia). «É inacreditável que não haja uma definição de política teatral para os teatros nacionais e de fomento da actividade teatral em geral. Na falta dela, é completamente irrelevante discutir nomes de pessoas.» Miguel Abreu (Actor, encenador e director artístico do Grupo Cassefaz e do Teatro Municipal Maria Matos). «Acho bem; não é que não achasse bem o João Grosso, mas, uma vez que não quer continuar, António Lagarto conhece bem o Teatro Nacional D. Maria II, já foi subdirector, trabalhou lá bastantes anos. Assim ele tenha os meios necessários para trabalhar.» João Mota (Actor, encenador e director da Comuna _ Teatro de Pesquisa). «Conheço o António Lagarto há bastantes anos e o que posso dizer é que é uma pessoa muito competente. Mas esta é a primeira vez que ele vai assumir responsabilidades de direcção artística numa companhia de teatro.» Carlos Avilez (Encenador, director do Teatro Experimental de Cascais e ex-director do Teatro D. Maria II ). «Desde que saí do D. Maria II, nunca mais fiz comentários sobre o assunto. Quanto à nomeação de António Lagarto, espero calmo, apenas como observador, mas não faço quaisquer comentários.» Lúcia Sigalho (Actriz, encenadora e directora da Companhia de Teatro Sensurround). «Não tenho por hábito comentar nomes de pessoas. Mas espero que haja rapidamente uma definição das linhas de orientação do D. Maria II. Toda a gente do teatro português está empenhada em que haja uma clarificação da situação do Teatro Nacional D. Maria II.» Jorge Silva Melo (Actor, encenador e director dos Artistas Unidos). «Neste momento estou na Alemanha e não quero comentar coisas que desconheço.»"
(Diário de Notícias, 4 de Julho de 2003).
Luís Miguel Cintra
Jorge Silva Melo
«Para o actor, encenador e director do Teatro da Cornucópia Luís Miguel Cintra, "mais do que falar sobre as pessoas que vão ocupar os cargos, interessa discutir uma filosofia global para a actividade teatral. Só depois de definida uma política global é que se pode discutir e definir a função que os teatros nacionais podem ter". Também Lúcia Sigalho, encenadora, actriz e directora da Casa dos Dias D'Água, sublinhou ontem a necessidade de definição das linhas gerais para os teatros nacionais. "É injusto falarmos das pessoas em vez de falarmos dos teatros nacionais. Reconheço-lhe um percurso seríssimo mas é preciso garantias de que a situação do D. Maria seja esclarecida. É preciso definir-se qual a função de um teatro nacional, que devia ser exemplar em termos programáticos e financeiros. Já vai no terceiro ministro sem que a situação do D. Maria se resolva."»
(Público, 4 de Julho de 2003)
quinta-feira, julho 03, 2003
UMA REVOADA DE POMBOS ESCARLATES...
"Uma revoada de pombos escarlates estala em torno do meu pensamento (...). Para vós, a minha sabedoria é tão desprezível como o caos. Que é o meu nada, comparado ao horror que vos espera?"
(Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Vidas. Trad. de Mário Cesaryni)
(Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Vidas. Trad. de Mário Cesaryni)
O ROUBO É O ACTO SAGRADO...
"O roubo é o acto sagrado
No caminho retorcido para a expressão
Uma grande quantidade de pontos de exclamação
substitui um colapso nervoso eminente
Só uma palavra na página e lá está o teatro
Escrevo para os mortos
os desnascidos
Depois das 4:48 não volto a falar
Cheguei ao fim deste conto repugnante e aterrorizante de um sentimento metido numa carcassa alienígena inchada pelo espírito maligno da maioria moralista
Estou morta há muito tempo
De volta às raízes
Canto sem esperança na fronteira"
(Sarah Kane, 4:48 Psicose, trad. port., 2001: 299)
No caminho retorcido para a expressão
Uma grande quantidade de pontos de exclamação
substitui um colapso nervoso eminente
Só uma palavra na página e lá está o teatro
Escrevo para os mortos
os desnascidos
Depois das 4:48 não volto a falar
Cheguei ao fim deste conto repugnante e aterrorizante de um sentimento metido numa carcassa alienígena inchada pelo espírito maligno da maioria moralista
Estou morta há muito tempo
De volta às raízes
Canto sem esperança na fronteira"
(Sarah Kane, 4:48 Psicose, trad. port., 2001: 299)
MESA DE CABECEIRA
António Lobo Antunes, a pedido do jornal Público (suplemento Mil Folhas, 30 de Dezembro de 2000), escolheu, entre as obras publicadas nos últimos 100 anos, 21 para o próximo século. Por mim, confesso a minha ignorância de tão douta literatura. Mas suspeito que a Dona Margarida não deixa que ninguém tire estas livros da sua mesa de cabeceira...
Sandokan, Soberano da Malásia, Emilio Salgari
Viagem ao Centro da Terra, Júlio Verne
Os Desastres de Sophia, Condessa de Ségur
Emílio e os Detectives, Erik Kastnre
Proeza e Tropelias do Serapião Tobias, Gabriel Ferrão
Aventuras de D. Redonda, Virgínia de Castro e Almeida
O Capitão da Morte, Adolfo Simões Müller
Pinóquio, Carlo Collodi
A Minha Primeira Comunhão, Cónego Moreira das Neves
Livro da I Classe de 1950
Almanaque Bertrand de 1951
A colecção completa do Mundo de Aventuras
História de Portugal para as Criancinhas Lerem, Uma Mãe Portuguesa
Eu sou o Testículo do João, Selecções do Reader’s Digest
Memórias de uma Nota de Banco, Joaquim Paço d’Arcos
A Carpintaria ao Alcance de Todos, João Pereira Branco
Dez Mulheres Célebres, Dale Carnegie
O Crime da Praia de Chelas, anónimo
Eu não sou tua Mãe, Corín Tellado
Psicanalise-se a si mesmo, Moacyr Sampaio
As páginas pares dos “Cadernos de Lanzarote”, saltando uma de quatro em quatro, José Saramago
Sandokan, Soberano da Malásia, Emilio Salgari
Viagem ao Centro da Terra, Júlio Verne
Os Desastres de Sophia, Condessa de Ségur
Emílio e os Detectives, Erik Kastnre
Proeza e Tropelias do Serapião Tobias, Gabriel Ferrão
Aventuras de D. Redonda, Virgínia de Castro e Almeida
O Capitão da Morte, Adolfo Simões Müller
Pinóquio, Carlo Collodi
A Minha Primeira Comunhão, Cónego Moreira das Neves
Livro da I Classe de 1950
Almanaque Bertrand de 1951
A colecção completa do Mundo de Aventuras
História de Portugal para as Criancinhas Lerem, Uma Mãe Portuguesa
Eu sou o Testículo do João, Selecções do Reader’s Digest
Memórias de uma Nota de Banco, Joaquim Paço d’Arcos
A Carpintaria ao Alcance de Todos, João Pereira Branco
Dez Mulheres Célebres, Dale Carnegie
O Crime da Praia de Chelas, anónimo
Eu não sou tua Mãe, Corín Tellado
Psicanalise-se a si mesmo, Moacyr Sampaio
As páginas pares dos “Cadernos de Lanzarote”, saltando uma de quatro em quatro, José Saramago
quarta-feira, julho 02, 2003
MUDAM AS MOSCAS... ou ZANGAM-SE AS COMADRES... (1)
«Desespero da espera levou João Grosso a apresentar, ao secretário de Estado da Cultura, José Amaral Lopes, a demissão de vogal com funções artísticas na comissão de gestão do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II), para as quais foi convidado pelo ministro Santos Silva (Setembro, 2001), após andar com um pé dentro, outro fora, em sucessão de episódios que noticiámos. À comissão de gestão, presidida por Amaral Lopes antes de ir para a SEC, cabe reestruturar o teatro, dando lugar a direcção efectiva, com nova Lei Orgânica.» (Diário de Notícias, 1 de Julho de 2003)
«O programador Paulo Cunha e Silva confirmou ontem que aceitou dirigir o Instituto das Artes (IA), que funde o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) com o Instituto Português das Artes do Espectáculo (IPAE), mas só admite ser empossado quando o IPAE resolver a questão dos subsídios em atraso. "É uma questão crucial. Não entendo uma política para a criação sem subsídios. Disse ao ministro da Cultura [Pedro Roseta] que não queria ser nem bombeiro nem coveiro da arte contemporânea", disse Cunha e Silva ao PÚBLICO, acrescentando ter a garantia do ministro de que a situação seria "resolvida o mais rapidamente possível".» (Público, 1 de Julho de 2003)
«Defensor da fusão desde o princípio, Cunha e Silva explica que aceitou o convite porque "as artes visuais ficam bem ao lado das artes performativas, dos pontos de vista conceptual e administrativo", e quer que o IA tenha "um papel importante na definição da relação do país com a arte contemporânea". Recusa um instituto que seja uma mera adição do IAC e IPAE: "Vou criar um IA que possa ser uma estrutura mais complexa do que se juntássemos apenas os dois institutos. Para já tenho dois eixos fundamentais: ser provedor dos artistas e da criação - os artistas podem contar comigo - e desenvolver aquilo que está no programa de Governo, ao qual obviamente não posso fugir - a descentralização da criação contemporânea para ultrapassar a vocação canibal de Lisboa e Porto e a aposta na internacionalização, uma vez que Portugal tem um défice de imagem exterior."» (id., ib.)
O deputado Augusto Santos Silva, ex-ministro da Cultura e actual porta-voz do PS para o sector, diz que a escolha de Cunha e Silva é "boa". (id., ib.)«Já o director artístico da Culturgest, António Pinto Ribeiro, foi lacónico: "Sei que é uma pessoa que organiza bem uns colóquios no Porto."» (id., ib.)
«João Grosso demitiu-se da direcção artística do Teatro Nacional D. Maria II em ruptura política com o Ministério da Cultura (MC), que acusa de "total ausência de pensamento" sobre a instituição e o teatro português (...)”» (Público, 2 de Julho de 2003)
«Desde a saída de Carlos Avillez, em 2000, que não é nomeado um director artístico para o D. Maria, ainda hoje dirigido pela comissão de gestão, que entrou em funções durante o mandato de José Sasportes como ministro. Na prática, Grosso assumia as funções de director artístico, mas a sua situação era indefinida já que a indigitação para o cargo depende da aprovação da lei orgânica do D. Maria: o seu cargo era o de vogal da comissão de gestão com a responsabilidade da programação artística.» (id., ib.)
«Ao PÚBLICO, Grosso disse: "Uma reestruturação não é negociar a rescisão de contratos de trabalho. Chego à conclusão que não há uma ideia profunda de reestruturação; não há um projecto político nem para o teatro nacional nem para o teatro em geral. Não há programa sustentado e isto foi repetido por mim até à exaustão.» (id., ib.)«Sobre a ruptura política com o MC, Grosso diz que vai para além das questões relacionadas com o D. Maria: "É aterrador estarmos em Julho e as pessoas não saberem quando vão receber o dinheiro dos subsídios, terem que anular projectos, pedir dinheiro à banca: é a absoluta falta de respeito pelo criador e pelo ser humano. Os actores não são trapos."» (id., ib.)«O MC disse ontem que o projecto de lei foi concluído a 30 de Junho "e mereceu a concordância de todos os membros da comissão de gestão", incluindo Grosso.
Nota ainda que foram "garantidas todas as condições solicitadas pelo vogal João Grosso para o desenvolvimento das actividades de produção artística", e acrescenta que "nem se reconhece qualquer justificação ou legitimidade ao vogal João Grosso para dirigir uma carta à comunicação social, a qual só no dia seguinte foi dada a conhecer à tutela."» (id., ib.)
«O programador Paulo Cunha e Silva confirmou ontem que aceitou dirigir o Instituto das Artes (IA), que funde o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) com o Instituto Português das Artes do Espectáculo (IPAE), mas só admite ser empossado quando o IPAE resolver a questão dos subsídios em atraso. "É uma questão crucial. Não entendo uma política para a criação sem subsídios. Disse ao ministro da Cultura [Pedro Roseta] que não queria ser nem bombeiro nem coveiro da arte contemporânea", disse Cunha e Silva ao PÚBLICO, acrescentando ter a garantia do ministro de que a situação seria "resolvida o mais rapidamente possível".» (Público, 1 de Julho de 2003)
«Defensor da fusão desde o princípio, Cunha e Silva explica que aceitou o convite porque "as artes visuais ficam bem ao lado das artes performativas, dos pontos de vista conceptual e administrativo", e quer que o IA tenha "um papel importante na definição da relação do país com a arte contemporânea". Recusa um instituto que seja uma mera adição do IAC e IPAE: "Vou criar um IA que possa ser uma estrutura mais complexa do que se juntássemos apenas os dois institutos. Para já tenho dois eixos fundamentais: ser provedor dos artistas e da criação - os artistas podem contar comigo - e desenvolver aquilo que está no programa de Governo, ao qual obviamente não posso fugir - a descentralização da criação contemporânea para ultrapassar a vocação canibal de Lisboa e Porto e a aposta na internacionalização, uma vez que Portugal tem um défice de imagem exterior."» (id., ib.)
O deputado Augusto Santos Silva, ex-ministro da Cultura e actual porta-voz do PS para o sector, diz que a escolha de Cunha e Silva é "boa". (id., ib.)«Já o director artístico da Culturgest, António Pinto Ribeiro, foi lacónico: "Sei que é uma pessoa que organiza bem uns colóquios no Porto."» (id., ib.)
«João Grosso demitiu-se da direcção artística do Teatro Nacional D. Maria II em ruptura política com o Ministério da Cultura (MC), que acusa de "total ausência de pensamento" sobre a instituição e o teatro português (...)”» (Público, 2 de Julho de 2003)
«Desde a saída de Carlos Avillez, em 2000, que não é nomeado um director artístico para o D. Maria, ainda hoje dirigido pela comissão de gestão, que entrou em funções durante o mandato de José Sasportes como ministro. Na prática, Grosso assumia as funções de director artístico, mas a sua situação era indefinida já que a indigitação para o cargo depende da aprovação da lei orgânica do D. Maria: o seu cargo era o de vogal da comissão de gestão com a responsabilidade da programação artística.» (id., ib.)
«Ao PÚBLICO, Grosso disse: "Uma reestruturação não é negociar a rescisão de contratos de trabalho. Chego à conclusão que não há uma ideia profunda de reestruturação; não há um projecto político nem para o teatro nacional nem para o teatro em geral. Não há programa sustentado e isto foi repetido por mim até à exaustão.» (id., ib.)«Sobre a ruptura política com o MC, Grosso diz que vai para além das questões relacionadas com o D. Maria: "É aterrador estarmos em Julho e as pessoas não saberem quando vão receber o dinheiro dos subsídios, terem que anular projectos, pedir dinheiro à banca: é a absoluta falta de respeito pelo criador e pelo ser humano. Os actores não são trapos."» (id., ib.)«O MC disse ontem que o projecto de lei foi concluído a 30 de Junho "e mereceu a concordância de todos os membros da comissão de gestão", incluindo Grosso.
Nota ainda que foram "garantidas todas as condições solicitadas pelo vogal João Grosso para o desenvolvimento das actividades de produção artística", e acrescenta que "nem se reconhece qualquer justificação ou legitimidade ao vogal João Grosso para dirigir uma carta à comunicação social, a qual só no dia seguinte foi dada a conhecer à tutela."» (id., ib.)
terça-feira, julho 01, 2003
"Em resposta ao Pedro:
Pedro: O tal 1º rei (de um país comprado à Santa Sé em 1143, através do contrato/negócio de Zamora), não era tanto isso de armas/religião. A história escrita pelos árabes mostra que esse Afonso possuía uma cultura de diversidade e, sob o seu reinado, as diversas religiões coabitaram sem diferenças de maior. Se ele tinha algum problema com alguma instituição religiosa seria certamente com a católica romana (em vias de ser transferida de Roma para Washington). Digo isto sem laivos de nacionalismo, apenas pela leitura (diversificada) das fontes históricas.
Teatro: Pela prática comum, seria eficaz a utópica consciência individual. A capacidade de dizer não aos acenos da facilidade e do mediatismo. Em cada actuante do teatro essa consciência é que pode fazer a diferença, independentemente dos poderes mais ou menos circunstanciais, mais ou menos mecenáticos. Fazer teatro – e, nele, jamais esquecer ou secundarizar a dramaturgia – é o fulcro. Desde os primeiros formatos educacionais, sobretudo num país cuja tradição dramática é demasiado leve e o pouco quotidiano dos palcos esteve (ainda está?) enfeudado a uma série de razões (que alguns diplomatas classificariam de pragmáticas) terrivelmente distantes do teatro enquanto lugar de expressão de vida e pensamento. Tal se poderia extensionar a todas as outras artes.
Os diversos nichos de teatro em Portugal no século XX – tão impudoradamente omitidos, tão mal desejados pelos actuais e honestos actuantes do teatro – tiveram e têm como matriz a própria cicatriz pessoal – sem que, na individualidade, se instaure o individualismo. Pedia-te Pedro, a este básico nível, que te desses ao trabalho de ver o que de teatro não é divulgado em jornais ou sites ou outras poderosas armas de mercado, como a Grande Televisão. Esse trabalho imenso que só o Desejo alimenta, implica conhecer projectos em Lisboa (não auxiliados por megafones ou ressonâncias) e fora de Lisboa. Tenho muito a tentação de colocar aqui nomes de pessoas e grupos mas resisto.
Quando se faz a dramaturgia de um texto (de Ésquilo a Aristófanes, de Shakespeare a Von Kleist, de Jarry a Artaud, de Lorca a Liddell) o que procuramos é o Apocalipse em seu esquecido étimo: tirar oVéu, desvendar. Tal nem sempre é fácil e muito raramente é rápido. A dramaturgia é muito mais morosa que a encenação. Por outro lado, sem ela, não existe Verdade (tomada em “oblíqua exactidão”) nem interior nem exterior (em Palco). Perguntaria então (sabendo a pergunta retórica e que de modo nenhum te é dirigida) quantas Verdades (ainda que “oblíquas”) existem em Portugal e nos diferentes modelos (incluindo laborais) de serem apresentadas."
Alberto Augusto Miranda (incomunidade@yahoo.com.ar )
Pedro: O tal 1º rei (de um país comprado à Santa Sé em 1143, através do contrato/negócio de Zamora), não era tanto isso de armas/religião. A história escrita pelos árabes mostra que esse Afonso possuía uma cultura de diversidade e, sob o seu reinado, as diversas religiões coabitaram sem diferenças de maior. Se ele tinha algum problema com alguma instituição religiosa seria certamente com a católica romana (em vias de ser transferida de Roma para Washington). Digo isto sem laivos de nacionalismo, apenas pela leitura (diversificada) das fontes históricas.
Teatro: Pela prática comum, seria eficaz a utópica consciência individual. A capacidade de dizer não aos acenos da facilidade e do mediatismo. Em cada actuante do teatro essa consciência é que pode fazer a diferença, independentemente dos poderes mais ou menos circunstanciais, mais ou menos mecenáticos. Fazer teatro – e, nele, jamais esquecer ou secundarizar a dramaturgia – é o fulcro. Desde os primeiros formatos educacionais, sobretudo num país cuja tradição dramática é demasiado leve e o pouco quotidiano dos palcos esteve (ainda está?) enfeudado a uma série de razões (que alguns diplomatas classificariam de pragmáticas) terrivelmente distantes do teatro enquanto lugar de expressão de vida e pensamento. Tal se poderia extensionar a todas as outras artes.
Os diversos nichos de teatro em Portugal no século XX – tão impudoradamente omitidos, tão mal desejados pelos actuais e honestos actuantes do teatro – tiveram e têm como matriz a própria cicatriz pessoal – sem que, na individualidade, se instaure o individualismo. Pedia-te Pedro, a este básico nível, que te desses ao trabalho de ver o que de teatro não é divulgado em jornais ou sites ou outras poderosas armas de mercado, como a Grande Televisão. Esse trabalho imenso que só o Desejo alimenta, implica conhecer projectos em Lisboa (não auxiliados por megafones ou ressonâncias) e fora de Lisboa. Tenho muito a tentação de colocar aqui nomes de pessoas e grupos mas resisto.
Quando se faz a dramaturgia de um texto (de Ésquilo a Aristófanes, de Shakespeare a Von Kleist, de Jarry a Artaud, de Lorca a Liddell) o que procuramos é o Apocalipse em seu esquecido étimo: tirar oVéu, desvendar. Tal nem sempre é fácil e muito raramente é rápido. A dramaturgia é muito mais morosa que a encenação. Por outro lado, sem ela, não existe Verdade (tomada em “oblíqua exactidão”) nem interior nem exterior (em Palco). Perguntaria então (sabendo a pergunta retórica e que de modo nenhum te é dirigida) quantas Verdades (ainda que “oblíquas”) existem em Portugal e nos diferentes modelos (incluindo laborais) de serem apresentadas."
Alberto Augusto Miranda (incomunidade@yahoo.com.ar )
segunda-feira, junho 30, 2003
CONVERSAR SOBRE TEATRO (2)
Entra na conversa o Carlos Piecho (carlospiecho@netcabo.pt):
Vamos falar de teatro: o subsídio, o actor expulso, a crítica/professora, as condições para, a quantos quilómetros fica o LUX. Como diz Brook “o lúcido”, é sempre a “roughness” – a forma bravia, rude, sem estilo,– que vem salvar a situação.
Enquanto a conversa estilosa e de circunstância, decorre sobre o subsídio, o actor expulso, a crítica/professora, as condições para, a quantos quilómetros fica o LUX, o mundo continua a girar e o teatro que nasce porque rebenta continua a ser feito, por pessoas que ninguém conhece, para pessoas que ninguém conhece, em sítios que ninguém conhece, sem que no LUX se dê conta, porque a conversa, lânguida, vagueia entre os amiguinhos/inimiguinhos do ministério, as férias/estágio em NY e o novo DJ.
CRIADO
Senhor.
DIRECTOR
Que é?
CRIADO
Está aí o público.
DIRECTOR
Que entre.
(Entram quatro cavalos brancos)
DIRECTOR
Que desejam? (Os Cavalos tocam as trombetas) Era assim se eu fosse um homem capaz de suspirar.
O meu teatro será sempre ao ar livre! Mas perdi toda a minha fortuna. Se não envenenava o ar livre. Basta-me uma seringa pequenina. Fora daqui! Fora da minha casa, cavalos! Já se inventou a cama para dormir com os cavalos. (Chorando) Meus cavalinhos.
(Início do Primeiro Quadro de “O Público”, de Federico Garcia Lorca).
Vamos falar de teatro: o subsídio, o actor expulso, a crítica/professora, as condições para, a quantos quilómetros fica o LUX. Como diz Brook “o lúcido”, é sempre a “roughness” – a forma bravia, rude, sem estilo,– que vem salvar a situação.
Enquanto a conversa estilosa e de circunstância, decorre sobre o subsídio, o actor expulso, a crítica/professora, as condições para, a quantos quilómetros fica o LUX, o mundo continua a girar e o teatro que nasce porque rebenta continua a ser feito, por pessoas que ninguém conhece, para pessoas que ninguém conhece, em sítios que ninguém conhece, sem que no LUX se dê conta, porque a conversa, lânguida, vagueia entre os amiguinhos/inimiguinhos do ministério, as férias/estágio em NY e o novo DJ.
CRIADO
Senhor.
DIRECTOR
Que é?
CRIADO
Está aí o público.
DIRECTOR
Que entre.
(Entram quatro cavalos brancos)
DIRECTOR
Que desejam? (Os Cavalos tocam as trombetas) Era assim se eu fosse um homem capaz de suspirar.
O meu teatro será sempre ao ar livre! Mas perdi toda a minha fortuna. Se não envenenava o ar livre. Basta-me uma seringa pequenina. Fora daqui! Fora da minha casa, cavalos! Já se inventou a cama para dormir com os cavalos. (Chorando) Meus cavalinhos.
(Início do Primeiro Quadro de “O Público”, de Federico Garcia Lorca).
domingo, junho 29, 2003
CONVERSAR SOBRE TEATRO (1)
Pedro Marques entra na conversa; assim:
"Ainda bem que se começa a discutir o teatro em Portugal
Embora não concorde com algumas das considerações que a professora Eugénia Vasques faz a propósito da atribuição dos subsídios (já lá vamos), acho bastante útil e saudável discutir-se estes assuntos, dada a falta de respeito com que o Estado Português trata a Arte e os artistas em geral, o Teatro em particular e por um efeito reflexivo os portugueses como povo. A cultura não é um objecto de fachada para ser exibido em eventos como festivais e outros acontecimentos generalistas e superficiais. A cultura de um povo não pode ser deixada nas mãos de meia dúzia de mercantilistas que por acaso estão no poder em determinada altura. Um povo não pode estar ao sabor dos ventos das intenções de voto, seja elas quais forem. Por consequência, o teatro não pode estar subservientemente dependente de um júri que avaliará necessariamente segundo um conjunto de regras, seja elas quais forem. O teatro e as artes performativas têm de ser encaradas como um património e devem receber tanta atenção como o Mosteiro dos Jerónimos ou os Maias.
Daqui nasce a primeira acha para a fogueira.
O problema não são as regras dos subsídios nem sequer os juris. É óbvio. Um concurso tem regras. Os candidatos ao concurso submetem-se às regras. Haverá sempre pessoas discordantes, infelizes, desiludidas, etc. O problema, acho eu, reside no facto de não haver uma política capaz de garantir mais dinheiro para A Cultura. E falo de dinheiro sem ter medo de ser mesquinho, de poder transbordar de demagogia. Quando sabemos da fatia do Orçamento de Estado atribuido ao Ministério da Cultura só podemos rir (1%?)???? Quando o Ministro Carrilho se demitiu será que ele não estava de facto a reclamar uma política cultural real, e não uma política de fachada que manteve o povo português, até agora, num muito chorado analfabetismo? Quando ele se demitiu não estava politicamente a demonstrar que o governo PS era uma fantochada como o governo que o precedeu e como o governo que agora desgoverna o país? Não quero com isto dizer que o Ministério desse tempo tenha feito tudo bem ou que tenha feito tudo o que estava ao seu alcance, eu acho que o Ministro viu a sua incapacidade para lidar com forças muito mais fortes do que aquelas que ele ingenuamente queria crer. Ele viu que o trabalho era difícil, que tinhamos muito para fazer. Durante o primeiro mandato do PS o Ministro aceitou o orçamento que lhe foi atribuído, mas no outro orçamento quis crescer, como é normal, um Ministério acabado de ser construído! Mas Não cresceu. E por isso demitiu-se. E fez muito bem. Ele tinha visto que primeiro precisamos criar, desenvolver, e depois aperfeiçoar uma política séria, que tire (e agora sou quase nacionalista) Portugal do seu estado de letargia que dura desde o dia em que um desgraçado rei decidiu ir combater uns mouros e levou na 'pinha'. Curiosamente um rei educado sob os auspícios das armas e da religião, duas coisas que, quando combinadas, produzem efeitos devastadores (como pudémos constatar hoje em dia nos dons sebastiãos que se suicidaram nas twin towers). Daí, acho, o seu privilégio às 'renovações de linguagem', etc. Aos projectos inovadores, etc. Numa palavra, à CRIATIVIDADE.
Daqui nasce a segunda acha para a fogueira.
Os Artistas Unidos foram um exemplo de 'projecto inovador', de 'renovação de uma linguagem': a atenção para com um reportório contemporâneo que reflectisse a nossa vida quotidiana; a criação de oficinas de escrita teatral e ligações com instituições que procuram o mesmo tipo de iniciativas: Royal Court Theatre, British Council; a criação de vários horários para espectáculos teatrais, possibilitando dessa forma uma maior fixação do público; as iniciativas de acompanhar a representação de peças com outro tipo de iniciativas, tais como: leituras de peças teatrais do mesmo autor, sessões de vídeo, ciclos de cinema, concertos de música, etc; a manutenção de uma revista exclusivamente de teatro; para além de todas as considerações estéticas e artísticas que possam ser feitas ao trabalho.
Por isso, não acho justo que se diga que os Artistas Unidos são os beneficiados deste estado de coisas. Os Artistas Unidos fizeram, com o dinheiro que a professora Eugénia Vasques refere, mais pelo desenvolvimento do teatro em Portugal que muitas companhias 'institucionalizadas'. Os Artistas Unidos candidataram-se a um subsídio e ganharam a atribuição. Apenas isso. Eles deviam ser vistos como uma companhia charneira, admirada, acarinhada mas normalmente ela é invejada e amesquinhada. Só uma pena a transbordar de ressentimentos pode escrever este passo do texto que eu acho absolutamente insultuoso: '(...) se tal não viesse acompanhado de uma grande incapacidade de respeitar os seus actores que, de há dois anos para cá, mantêm, inclusivé, a imagem de estrutura com os seus exercícios individuais, algumas vezes, até, prosseguindo carreiras de espectáculos em nome da AU quando já foram, como informam, por escrito, actores e espectadores, insultados e expulsos do agrupamento (ex: Dois Homens)! (...)' A professora Eugénia Vasques não sabe o que realmente aconteceu no incidente a que se quis referir, sabe versões da história, revela um profundo desconhecimento da actividade dos AUs (que vergonha!) e não tem o direito de vir para a praça pública fazer conjecturas sobre a honra das pessoas. Eu estava a trabalhar nessa altura nos Artistas Unidos e aquilo que aconteceu só diz respeito aos ACTORES e à PRODUTORA. O público não tem nada a ver com a história. O público foi sempre tratado com todo o respeito. Apesar dos casos com pessoas que reclamavam bilhetes quando chegavam atrasadas. (Mais uma falta de respeito.) Que recebiam o tratamento igual àquele que nos é dado quando compramos um bilhete de autocarro e não aparecemos à hora da partida. Não vamos reclamar o bilhete, pois não?
Não me quero alongar demasiado.
Só não queria deixar passar em claro esta oportunidade para responder publicamente a este texto. Eu li-o na altura em que foi publicado e digo que fiquei absolutamente indignado. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, acho que é uma boa oportunidade para começar uma discussão."
Pedro Marques
pmsmarques@netcabo.pt
A conversa também no blog Cruzes Canhoto
"Ainda bem que se começa a discutir o teatro em Portugal
Embora não concorde com algumas das considerações que a professora Eugénia Vasques faz a propósito da atribuição dos subsídios (já lá vamos), acho bastante útil e saudável discutir-se estes assuntos, dada a falta de respeito com que o Estado Português trata a Arte e os artistas em geral, o Teatro em particular e por um efeito reflexivo os portugueses como povo. A cultura não é um objecto de fachada para ser exibido em eventos como festivais e outros acontecimentos generalistas e superficiais. A cultura de um povo não pode ser deixada nas mãos de meia dúzia de mercantilistas que por acaso estão no poder em determinada altura. Um povo não pode estar ao sabor dos ventos das intenções de voto, seja elas quais forem. Por consequência, o teatro não pode estar subservientemente dependente de um júri que avaliará necessariamente segundo um conjunto de regras, seja elas quais forem. O teatro e as artes performativas têm de ser encaradas como um património e devem receber tanta atenção como o Mosteiro dos Jerónimos ou os Maias.
Daqui nasce a primeira acha para a fogueira.
O problema não são as regras dos subsídios nem sequer os juris. É óbvio. Um concurso tem regras. Os candidatos ao concurso submetem-se às regras. Haverá sempre pessoas discordantes, infelizes, desiludidas, etc. O problema, acho eu, reside no facto de não haver uma política capaz de garantir mais dinheiro para A Cultura. E falo de dinheiro sem ter medo de ser mesquinho, de poder transbordar de demagogia. Quando sabemos da fatia do Orçamento de Estado atribuido ao Ministério da Cultura só podemos rir (1%?)???? Quando o Ministro Carrilho se demitiu será que ele não estava de facto a reclamar uma política cultural real, e não uma política de fachada que manteve o povo português, até agora, num muito chorado analfabetismo? Quando ele se demitiu não estava politicamente a demonstrar que o governo PS era uma fantochada como o governo que o precedeu e como o governo que agora desgoverna o país? Não quero com isto dizer que o Ministério desse tempo tenha feito tudo bem ou que tenha feito tudo o que estava ao seu alcance, eu acho que o Ministro viu a sua incapacidade para lidar com forças muito mais fortes do que aquelas que ele ingenuamente queria crer. Ele viu que o trabalho era difícil, que tinhamos muito para fazer. Durante o primeiro mandato do PS o Ministro aceitou o orçamento que lhe foi atribuído, mas no outro orçamento quis crescer, como é normal, um Ministério acabado de ser construído! Mas Não cresceu. E por isso demitiu-se. E fez muito bem. Ele tinha visto que primeiro precisamos criar, desenvolver, e depois aperfeiçoar uma política séria, que tire (e agora sou quase nacionalista) Portugal do seu estado de letargia que dura desde o dia em que um desgraçado rei decidiu ir combater uns mouros e levou na 'pinha'. Curiosamente um rei educado sob os auspícios das armas e da religião, duas coisas que, quando combinadas, produzem efeitos devastadores (como pudémos constatar hoje em dia nos dons sebastiãos que se suicidaram nas twin towers). Daí, acho, o seu privilégio às 'renovações de linguagem', etc. Aos projectos inovadores, etc. Numa palavra, à CRIATIVIDADE.
Daqui nasce a segunda acha para a fogueira.
Os Artistas Unidos foram um exemplo de 'projecto inovador', de 'renovação de uma linguagem': a atenção para com um reportório contemporâneo que reflectisse a nossa vida quotidiana; a criação de oficinas de escrita teatral e ligações com instituições que procuram o mesmo tipo de iniciativas: Royal Court Theatre, British Council; a criação de vários horários para espectáculos teatrais, possibilitando dessa forma uma maior fixação do público; as iniciativas de acompanhar a representação de peças com outro tipo de iniciativas, tais como: leituras de peças teatrais do mesmo autor, sessões de vídeo, ciclos de cinema, concertos de música, etc; a manutenção de uma revista exclusivamente de teatro; para além de todas as considerações estéticas e artísticas que possam ser feitas ao trabalho.
Por isso, não acho justo que se diga que os Artistas Unidos são os beneficiados deste estado de coisas. Os Artistas Unidos fizeram, com o dinheiro que a professora Eugénia Vasques refere, mais pelo desenvolvimento do teatro em Portugal que muitas companhias 'institucionalizadas'. Os Artistas Unidos candidataram-se a um subsídio e ganharam a atribuição. Apenas isso. Eles deviam ser vistos como uma companhia charneira, admirada, acarinhada mas normalmente ela é invejada e amesquinhada. Só uma pena a transbordar de ressentimentos pode escrever este passo do texto que eu acho absolutamente insultuoso: '(...) se tal não viesse acompanhado de uma grande incapacidade de respeitar os seus actores que, de há dois anos para cá, mantêm, inclusivé, a imagem de estrutura com os seus exercícios individuais, algumas vezes, até, prosseguindo carreiras de espectáculos em nome da AU quando já foram, como informam, por escrito, actores e espectadores, insultados e expulsos do agrupamento (ex: Dois Homens)! (...)' A professora Eugénia Vasques não sabe o que realmente aconteceu no incidente a que se quis referir, sabe versões da história, revela um profundo desconhecimento da actividade dos AUs (que vergonha!) e não tem o direito de vir para a praça pública fazer conjecturas sobre a honra das pessoas. Eu estava a trabalhar nessa altura nos Artistas Unidos e aquilo que aconteceu só diz respeito aos ACTORES e à PRODUTORA. O público não tem nada a ver com a história. O público foi sempre tratado com todo o respeito. Apesar dos casos com pessoas que reclamavam bilhetes quando chegavam atrasadas. (Mais uma falta de respeito.) Que recebiam o tratamento igual àquele que nos é dado quando compramos um bilhete de autocarro e não aparecemos à hora da partida. Não vamos reclamar o bilhete, pois não?
Não me quero alongar demasiado.
Só não queria deixar passar em claro esta oportunidade para responder publicamente a este texto. Eu li-o na altura em que foi publicado e digo que fiquei absolutamente indignado. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, acho que é uma boa oportunidade para começar uma discussão."
Pedro Marques
pmsmarques@netcabo.pt
A conversa também no blog Cruzes Canhoto
sábado, junho 28, 2003
SUBSIDIAR
Os criadores teatrais portugueses esperam, há muito tempo, demasiado tempo, que o Senhor Ministro da Cultura, Dr. Pedro Roseta, homologue as decisões do Júri do IPAE sobre os apoios ÀS ACTIVIDADES TEATRAIS DE CARÁCTER PROFISSIONAL E DE INICIATIVA NÃO GOVERNAMENTAL (leia-se "subsídios"), para o corrente ano. Espera-se mas discute-se pouco - pelo menos publicamente (apenas me recordo de recentes declarações de Jorge Silva Melo): a imprensa portuguesa gosta mais de discutir os estádios do Euro 2004... e...
Em finais de 2000 (8 de Dezembro), Eugénia Vasques publicou uma Crónica no jornal Expresso (Suplemento "Cartaz", rubrica LUGAR CATIVO) sobre o sempre escaldante tema dos subsídios ao teatro profissional. Vasques já não escreve no jornal. Muito recentemente, pertenceu ao JÚRI do IPAE para os "subsídios", os tais que o Senhor Ministro ainda não homologou. O texto abaixo transcrito pode avivar a discussão - ou não?
«S U B S I D I A R...»
"...Está, no Dicionário Etimológico, muito próximo de “subserviente”, adjectivo encontrado, em pleno século XVII, no discurso moral da Igreja “Subsídio”, esse, é coisa de romanos e foi sendo “reforço”, “socorro”; “ajuda”, sustentáculo”, “assistência”; “meio de remediar”, “asilo” e, em 1428, já um “Salazar”, de nome Andrés Martinez, falava, em galego, dos “repartidores” de “sussidio”! E até o amargurado Juvenal lançava o seu célebre panem et circenses para sublinhar a decadência dos romanos que só pediam trigo e espectáculo gratuitos!
Mais do que uma tirada “liberal”, este intróito – como muito acontece às e aos crític@s de teatro quando a matéria propriamente artística não gera entusiasmo – é, na realidade, expressão de perplexidade. Perante a publicação dos subsídios ao teatro para o ano 2001, para o biénio 2001-2002 e para o quadriénio que termina em 2004, não sou tomada nem por sanha reivindicativa nem por sentimentos de maternalismo revolucionário.
Constato que o IPAE – deixemos de falar nos “júris”, porque sabemos que (quase) todas as pessoas que os vêm constituindo são gente de bem, personalidades de boa fé e sem interesses próprios a defender, e que não são os “júris” que decidem, ainda quando se enredam na armadilha dos dinheiros, mas sim o IPAE e o(s) ministro(s) da Cultura – encontrou alguma “coragem” para cortar em subsídios até aqui clara e assumidamente determinados pela política (TAS, por exemplo) ou, o que é o mesmo, pelo medo das repercussões de eventual escândalo mediático (Barraca, por exemplo).
Constato que, da política aplicada, às vezes “à força”, pelo anterior MC, fundada na ideia de “novo criador”, de “diversificação” e “renovação de linguagens, repertórios e intérpretes”, resta, agora, o esforço de “institucionalização a todo o preço” do “império” Artistas Unidos [90.000 contos (sem incluir apoios ao Espaço Capital) x 4 anos + (4.000 Solveig Nordlund ?) + 10.000 contos APA, que, aliás, é ainda o projecto-alma de uma produtora cuja obra é não só irregular, o que em si não seria um “mal”, se tal não viesse acompanhado de uma grande incapacidade de respeitar os seus actores que, de há dois anos para cá, mantêm, inclusivé, a imagem de estrutura com os seus exercícios individuais, algumas vezes, até, prosseguindo carreiras de espectáculos em nome da AU quando já foram, como informam, por escrito, actores e espectadores, insultados e expulsos do agrupamento (ex: Dois Homens)!].
Constato que a mesma ideia de “renovação”, que explicou o apoio de novíssimos, não tem continuidade (exs: Visões Úteis, Teatro Só, Inestética, etc.).
Constato que a distribuição de um pequeno bodo por muitos “pobres” (Projectos), quando há um orçamento mais curto, não atrasa, nem adianta (ex: Projecto Teatral).
Constato que a ideia de “arbitrariedade” nos cortes e aumentos é a mais “flagrante”. E que a política de respeito pelos “históricos” não foi obra do IPAE que, pelos vistos, é um instituto sem política própria ao sabor do conceito “projecto-bem-feito” vs “mal feito”. Mas... aplicado ao menos a todos?»"
Em finais de 2000 (8 de Dezembro), Eugénia Vasques publicou uma Crónica no jornal Expresso (Suplemento "Cartaz", rubrica LUGAR CATIVO) sobre o sempre escaldante tema dos subsídios ao teatro profissional. Vasques já não escreve no jornal. Muito recentemente, pertenceu ao JÚRI do IPAE para os "subsídios", os tais que o Senhor Ministro ainda não homologou. O texto abaixo transcrito pode avivar a discussão - ou não?
«S U B S I D I A R...»
"...Está, no Dicionário Etimológico, muito próximo de “subserviente”, adjectivo encontrado, em pleno século XVII, no discurso moral da Igreja “Subsídio”, esse, é coisa de romanos e foi sendo “reforço”, “socorro”; “ajuda”, sustentáculo”, “assistência”; “meio de remediar”, “asilo” e, em 1428, já um “Salazar”, de nome Andrés Martinez, falava, em galego, dos “repartidores” de “sussidio”! E até o amargurado Juvenal lançava o seu célebre panem et circenses para sublinhar a decadência dos romanos que só pediam trigo e espectáculo gratuitos!
Mais do que uma tirada “liberal”, este intróito – como muito acontece às e aos crític@s de teatro quando a matéria propriamente artística não gera entusiasmo – é, na realidade, expressão de perplexidade. Perante a publicação dos subsídios ao teatro para o ano 2001, para o biénio 2001-2002 e para o quadriénio que termina em 2004, não sou tomada nem por sanha reivindicativa nem por sentimentos de maternalismo revolucionário.
Constato que o IPAE – deixemos de falar nos “júris”, porque sabemos que (quase) todas as pessoas que os vêm constituindo são gente de bem, personalidades de boa fé e sem interesses próprios a defender, e que não são os “júris” que decidem, ainda quando se enredam na armadilha dos dinheiros, mas sim o IPAE e o(s) ministro(s) da Cultura – encontrou alguma “coragem” para cortar em subsídios até aqui clara e assumidamente determinados pela política (TAS, por exemplo) ou, o que é o mesmo, pelo medo das repercussões de eventual escândalo mediático (Barraca, por exemplo).
Constato que, da política aplicada, às vezes “à força”, pelo anterior MC, fundada na ideia de “novo criador”, de “diversificação” e “renovação de linguagens, repertórios e intérpretes”, resta, agora, o esforço de “institucionalização a todo o preço” do “império” Artistas Unidos [90.000 contos (sem incluir apoios ao Espaço Capital) x 4 anos + (4.000 Solveig Nordlund ?) + 10.000 contos APA, que, aliás, é ainda o projecto-alma de uma produtora cuja obra é não só irregular, o que em si não seria um “mal”, se tal não viesse acompanhado de uma grande incapacidade de respeitar os seus actores que, de há dois anos para cá, mantêm, inclusivé, a imagem de estrutura com os seus exercícios individuais, algumas vezes, até, prosseguindo carreiras de espectáculos em nome da AU quando já foram, como informam, por escrito, actores e espectadores, insultados e expulsos do agrupamento (ex: Dois Homens)!].
Constato que a mesma ideia de “renovação”, que explicou o apoio de novíssimos, não tem continuidade (exs: Visões Úteis, Teatro Só, Inestética, etc.).
Constato que a distribuição de um pequeno bodo por muitos “pobres” (Projectos), quando há um orçamento mais curto, não atrasa, nem adianta (ex: Projecto Teatral).
Constato que a ideia de “arbitrariedade” nos cortes e aumentos é a mais “flagrante”. E que a política de respeito pelos “históricos” não foi obra do IPAE que, pelos vistos, é um instituto sem política própria ao sabor do conceito “projecto-bem-feito” vs “mal feito”. Mas... aplicado ao menos a todos?»"
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