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A quietude já não pertencerá a este tempo. São inúteis todas as palavras. Todos os corpos.
Quando estão serenos, os rios acomodam-se num sentido comum – arriscam-se a percorrer juntos todo o caminho da morte.
O tempo dissolve os ângulos da casa de passar as tardes. As paredes cobertas de verdete exsudem em espasmos lentos.
Para trespassar corpos, as palavras vomitam o mundo de trás para a frente.
Um corpo enrijece com a secura das palavras.
O meu guardião inventa um sorriso para findar a noite.
O meu guardião quer abrir um buraco no chão e sorver um rio.
Os rios subterrâneos conjugam-se em labirinto. A foz como enigma comum.
Uma falha é sempre a última falha. De umas vezes, morre-se. De outras, não.
Na calçada do general, as casas estão ligadas aos seus rios por longas linhas finas e invisíveis.
Nas costas, no exacto instante de um beijo, o calor do sol de um verão tardio.
Lembro-me: sugámos laranjas azuis. Sob uma tempestade. Não me lembro se rimos.
A água dos rios subterrâneos agita-se. No firmamento, uma lua inesperada.
Como fazer uma pergunta com uma palavra cindida?
Meaume, o gravador, morreu em Utrecht, aos 50 anos, nos braços de Marie Aidelle.
Sob a casa de passar as tardes, um rio (mais um?) reduz as margens. Na calçada do general, esvai-se a luz.
O meu guardião pede-me para lhe contar uma história. “Era uma vez um rio...”