terça-feira, janeiro 27, 2004


No meio do Atlântico há uma casa gémea da casa de passar as tardes. Perto de um vulcão.



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segunda-feira, janeiro 26, 2004


Um músculo por vezes fraqueja. Retorce-se. E depois desiste. Nem mesmo um sorriso largo o salva.


O meu guardião fala-me de limiares. Por exemplo: os limites da sombra do muro no lajedo.



Um rio deve ser rigoroso. Ter peixes e plantas e pedras e areias. Bombear água sem contrariar a Lua. E deixar-se morrer no mar.

Os rios subterrâneos estão silenciosos. Acumula-se lixo na calçada do general. Na casa de passar as tardes insinua-se uma dor. Como um gás inodoro e letal.


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Inventário: um punho cresceu até ao tamanho de um braço. E invadiu-me um sonho.



Um corpo ondula em imagens. Projecta-se no escuro da parede.

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domingo, janeiro 25, 2004


Certos movimentos dos rios subterrâneos fazem da casa de passar as tardes uma ilha. Mais propriamente: um vulcão numa ilha.



O meu guardião está vigilante. Sente a presença de um intruso. Pelo sim, pelo não, preparo os copos de cristal.
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sábado, janeiro 24, 2004


O meu guardião lê sempre o mesmo livro. Como se o escrevesse.



Leves sulcos na dureza da pele. Talvez palavras.

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sexta-feira, janeiro 23, 2004




A pele suave e tépida de um corpo. A pele gretada e áspera de outro corpo. A pele. Sempre resistente à escrita.



Uma língua de fogo aflora a mão em arco.
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quinta-feira, janeiro 22, 2004


Pão e laranjas alimentam a nossa noite. A água é para o repouso do dia.



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quarta-feira, janeiro 21, 2004


Deixarei um dia, nas primeiras folhas do meu caderno, a lista das minhas dívidas. As restantes folhas em branco imaculado.



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terça-feira, janeiro 20, 2004


Um homem possuído pela imagem de um corpo a oferecer-se caminha ao longo de um corredor conventual. Nas palmas das mãos flameja o óleo balsâmico dos amantes.



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segunda-feira, janeiro 19, 2004


Todos os dias ganho um dia. Todos os dias menos longe. De onde terminam as águas. E sombras.



domingo, janeiro 18, 2004




Estilhaço um copo na mão direita e danço. Depois, dormirei um sono regenerador, povoado por sonhos como se acreditasse.

sábado, janeiro 17, 2004



O meu guardião segreda-me enigmas. Depois, aconchega-se no seu canto favorito e casquina um riso matreiro.



É preciso aproveitar o tempo, diz muitas vezes o meu guardião. E assim, com charadas despropositadas, vai delapidando o tempo.



A calçada do general começa a ficar coberta de estilhaços de vidro. Como uma neve cruel. Treino a levitação.

sexta-feira, janeiro 16, 2004


Um sol tardio adia a noite. As folhas em branco cegam-me.



O meu guardião alisa a pele. Abre os poros. Alonga o corpo. Cintila. É belo.

terça-feira, janeiro 13, 2004




Textos brancos pontilhados pela energia (negra) de uma palavra. Protege-os o meu guardião.

domingo, janeiro 11, 2004


As unhas do meu guardião esculpem na parede uma forma obscura. Indecisão entre um corpo e uma palavra




CITAC - Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor


Dias 14, 15, 16
21:30 - Teatro Académico Gil Vicente - Coimbra


- Não é por falta de histórias, de história, que esta história começa. É pelo tempo que transborda para fora dos nossos corpos...
- ou dos corpos que sobraram do nosso tempo
- das palavras que enrolaram o tempo no meu corpo...
- e por isso a tua pele na minha pele...
- diluindo-se uma na outra...
- envolvendo outros corpos...
- cegando outros olhos...
- afinal é com os nossos corpos que esta história se faz...
- com os fantasmas dos nossos corpos...
- com o que resta dos nossos corpos...
- e das nossas palavras...


Um homem que em toda a sua vida quis ser príncipe.
Uma mulher que viveu toda a sua vida como um castor.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em cena?
Talvez. E também umas quantas conversas «de pessoas
que lançam à cara umas das outras, coisas que têm a dizer».




Encenação | Tiago de Faria
Assistente de encenação | Fernando Silva (estágio final do curso de Estudos Teatrais da Universidade de Évora)
Direcção de texto | Carlos Alberto Machado
Concepção de texto | Ana Fernandes | Carlos Alberto Machado | Fernando Silva |Tiago
Lança | Sílvia das Fadas

Interpretação | Ana Fernandes | Fernando Silva | Luís Rodeiro | Maria Inês Coroa | Sílvia das Fadas

Desenho de Luz | Mafalda Oliveira
Banda sonora | Bruno Matias | Francisco Frazão | Hugo Gama
Cenografia | Tiago Lança
Figurinos | Ana Manaia

Concepção Gráfica | huella

Produção CITAC 2003

Agradecimento de participação na elaboração de texto | Francisco Frazão | Jorge Correia | Niama

CITAC - EVENTO SARTRE/BEAUVOIR




PROGRAMA
Teatro Académico Gil Vicente - COIMBRA

Dia 12

09:30 - Abertura das exposições
17:30 - Abertura Oficial do Evento (Depoimentos dos citaquianos envolvidos no evento sartre e Beauvoir)
18:00 - Conversas sobre Sartre e Beauvoir com Tito Cardoso e Cunha, Pedro Calheiros, e Cecília Monteiro
22:00 Projecção do documentário “On a raison de se révolter”

Dia 13

09:30
- Abertura das exposições
18:00 - Projecção do documentário “Sartre par lui même”, 1.ª parte
22:00 - Concerto – apresentação da banda sonora do espectáculo “Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor”

Dia 14

09:30 - Abertura das exposições
18:00 - Conversas em torno de Simone de Beauvoir, com Zília Osório de Castro, Maria João Frazão
21:30 - Estreia do espectáculo “Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor”

Dia 15

09:30 - Abertura das exposições
18:00 - Projecção do documentário “Sartre par lui même - 2.ª parte”
21:30 - Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor

Dia 16

09:30 - Abertura das exposições
18:00 - Conversas sobre Sartre: António Pedro Pita (Sartre o Intelectual e a Situação), José Oliveira Barata (Sartre e o Teatro)
21:30 - Aventuras Extraordinárias do Príncipe e do Castor


sábado, janeiro 10, 2004


O meu guardião ensaia caligrafia. O rebordo de cada palavra acetinado a negro-azul. Chama-lhe “écriture d’ombres.”

O chão da casa de passar as tardes oscila docemente. Como um barco em repouso sobre as águas paradas de um lago.




A descrição do mundo fracassou. Restam sinais. Indícios vagos.

sexta-feira, janeiro 09, 2004


O muro verde do saguão lançou raízes e cresce. Isola do mundo a casa de passar as tardes.



As fundações da casa de passar as tardes expandem-se lentamente até tocar a superfície dos rios subterrâneos.