quinta-feira, abril 01, 2004


O meu guardião volta a insistir: atreve-te a escrever a palavra sarnosa. Resisto.

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sexta-feira, março 26, 2004


Nunca sei a razão de um corpo preso a outro corpo. Como não sei a razão de outras, tantas coisas.

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domingo, março 21, 2004


No cimo de uma fraga o mundo inteiro, isto é, uma ausência de princípio e fim.

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quarta-feira, março 10, 2004


Uma fraga desprende-se do mar como um fio de vida.
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terça-feira, março 09, 2004


Um minúsculo grão negro de lava brilha no escuro. Como a primeira palavra dita.
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segunda-feira, março 08, 2004


Passei o dia a tentar perceber os sentidos das breves contracções e distensões musculares do meu guardião. A esta observação chama ele poesia. E ri.
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sexta-feira, março 05, 2004


Na calçada do general há um cão sábio. Rói ossos roubados na casa dos mortos. O meu guardião inveja-o.

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segunda-feira, março 01, 2004


Fica sempre qualquer coisa por dizer. Por fazer. E nunca sei a diferença entre uma e outra indecisão.
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sábado, fevereiro 28, 2004


Encosto-me às paredes com umas quantas pequenas verdades nas mãos cerradas. Não ter as outras já não dói, apenas cansa. O corpo é um rio confundido entre a montanha e o mar. O meu dizer não sustém o mundo. Nem ele as minhas palavras.
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quinta-feira, fevereiro 12, 2004


Sob os meus pés, a lava em grãos torna impreciso o andar. O vento forte põe-me lágrimas nos olhos. Desbasto as impurezas nas palavras e invento uma fraga de desejos.



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sábado, fevereiro 07, 2004


Nenhuma palavra antes dita nos mostrou toda a mentira do mundo. Dizê-lo não basta, nunca bastou.

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Regresso à casa de passar as tardes. O meu guardião está sentado a meditar, coberto de líquenes azuis.

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quarta-feira, fevereiro 04, 2004


O nosso pequeno pedaço de mundo estagnou numa espécie de morte.



Um gesto apenas um pouco mais largo – mas exacto. Um pequeno deslize e é traição.

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quinta-feira, janeiro 29, 2004


As ondas em altas vagas levantadas pelos corpos submergem a casa de passar as tardes.



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terça-feira, janeiro 27, 2004


Sob as pedras negras jazem palavras. Possuem a intensidade da luz de uma estrela morta há milhões de anos.



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