domingo, julho 18, 2004

Foi depois da morte da engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo

Depois de me ter enojado com hipocrisias, mentiras, injúrias e memórias recauchutadas - antes e agora.

 
(para a Isabel Frazão)
 
Chamavas-te isabel e em frazoa
te efeminávamos o apelido
talvez para te compensar do homem
que se foi e te deixou viúva
alegre e sempre capaz de mais
um esforço pelo teu filho
pelo partido não importa quem
sabiamos-te a tristeza de dentro
e um dia os teus olhos brilharam
mais quando o nome da engenheira
foi aceite pelos teus camaradas
como candidata à presidência tu
sorriste abriste os olhos e as mãos
e falaste embora todos pô-la lá
e depois mais tarde os teus camaradas
disseram que afinal a engenheira
tinha sido da câmara corporativa
e era lésbica e era da opus dei
e isso fechou-te a boca e a cor
e isso deu-te o cancro da traição
e quando todo o teu corpo amoleceu
irremediavelmente o teu filho
correu a dizer ao partido
eu vou crescer e vão pagar-mas.

 
(d'A Realidade Inclinada, Lisboa, Averno, 2003: 84)


quinta-feira, julho 01, 2004

coisas que não se dizem

há coisas que não se dizem. l.w..

quinta-feira, abril 01, 2004


O meu guardião volta a insistir: atreve-te a escrever a palavra sarnosa. Resisto.

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sexta-feira, março 26, 2004


Nunca sei a razão de um corpo preso a outro corpo. Como não sei a razão de outras, tantas coisas.

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domingo, março 21, 2004


No cimo de uma fraga o mundo inteiro, isto é, uma ausência de princípio e fim.

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quarta-feira, março 10, 2004


Uma fraga desprende-se do mar como um fio de vida.
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terça-feira, março 09, 2004


Um minúsculo grão negro de lava brilha no escuro. Como a primeira palavra dita.
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segunda-feira, março 08, 2004


Passei o dia a tentar perceber os sentidos das breves contracções e distensões musculares do meu guardião. A esta observação chama ele poesia. E ri.
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sexta-feira, março 05, 2004


Na calçada do general há um cão sábio. Rói ossos roubados na casa dos mortos. O meu guardião inveja-o.

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segunda-feira, março 01, 2004


Fica sempre qualquer coisa por dizer. Por fazer. E nunca sei a diferença entre uma e outra indecisão.
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sábado, fevereiro 28, 2004


Encosto-me às paredes com umas quantas pequenas verdades nas mãos cerradas. Não ter as outras já não dói, apenas cansa. O corpo é um rio confundido entre a montanha e o mar. O meu dizer não sustém o mundo. Nem ele as minhas palavras.
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quinta-feira, fevereiro 12, 2004


Sob os meus pés, a lava em grãos torna impreciso o andar. O vento forte põe-me lágrimas nos olhos. Desbasto as impurezas nas palavras e invento uma fraga de desejos.



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sábado, fevereiro 07, 2004


Nenhuma palavra antes dita nos mostrou toda a mentira do mundo. Dizê-lo não basta, nunca bastou.

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Regresso à casa de passar as tardes. O meu guardião está sentado a meditar, coberto de líquenes azuis.

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quarta-feira, fevereiro 04, 2004


O nosso pequeno pedaço de mundo estagnou numa espécie de morte.



Um gesto apenas um pouco mais largo – mas exacto. Um pequeno deslize e é traição.

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