sábado, setembro 25, 2004
domingo, julho 18, 2004
Foi depois da morte da engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo
Depois de me ter enojado com hipocrisias, mentiras, injúrias e memórias recauchutadas - antes e agora.
(para a Isabel Frazão)
Chamavas-te isabel e em frazoa
te efeminávamos o apelido
talvez para te compensar do homem
que se foi e te deixou viúva
alegre e sempre capaz de mais
um esforço pelo teu filho
pelo partido não importa quem
sabiamos-te a tristeza de dentro
e um dia os teus olhos brilharam
mais quando o nome da engenheira
foi aceite pelos teus camaradas
como candidata à presidência tu
sorriste abriste os olhos e as mãos
e falaste embora todos pô-la lá
e depois mais tarde os teus camaradas
disseram que afinal a engenheira
tinha sido da câmara corporativa
e era lésbica e era da opus dei
e isso fechou-te a boca e a cor
e isso deu-te o cancro da traição
e quando todo o teu corpo amoleceu
irremediavelmente o teu filho
correu a dizer ao partido
eu vou crescer e vão pagar-mas.
(d'A Realidade Inclinada, Lisboa, Averno, 2003: 84)
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Encosto-me às paredes com umas quantas pequenas verdades nas mãos cerradas. Não ter as outras já não dói, apenas cansa. O corpo é um rio confundido entre a montanha e o mar. O meu dizer não sustém o mundo. Nem ele as minhas palavras.
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