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Meaume, o gravador, morreu em Utrecht, aos 50 anos, nos braços de Marie Aidelle.
Sob a casa de passar as tardes, um rio (mais um?) reduz as margens. Na calçada do general, esvai-se a luz.
O meu guardião pede-me para lhe contar uma história. “Era uma vez um rio...”
Para um lado ou para o outro? Se alguém sabe a resposta, não a partilha. O meu guardião rasga papéis inúteis.
Uma partícula de dúvida aniquila um gesto. E a dúvida é: como ter a certeza da decisão de um gesto?
Quantas vezes subiste e desceste a calçada do general? Faço esta pergunta inutilmente – se tivesse resposta também ela não guardaria a chave do enigma. Partiste. Eis um acontecimento tão indeclinável como um rio preso ao seu destino. E palavras a mais.
A casa de passar as tardes é frágil. Sabê-lo, fortalece-a.
Vinho tinto aquecido numa rocha ao rubro. Um acorde de viola de arco. O sexo húmido.
Se desistir não chego lá. Se perseverar também não.
Nem um som. Nem um gesto. Noite densa.
Passamos muito tempo a inventar perguntas. Ontem foi a minha vez.
O meu guardião não sairá nunca da casa de passar as tardes. Nem mesmo quando a sua cor e a das paredes se confundirem.
Há um tempo para tudo, dizem. E depois, sempre, o embaraço de um gesto fora de tempo.
Por penúria de matéria refaço mais uma vez o inventário.
Também conto palavras. Em cada contagem uma perda. O dilema é: emudecer ou arriscar.
A pergunta já não é: qual será a última palavra? Mas: onde estará?
Andamos, eu e o meu guardião, confundidos com os rios. Voláteis. De humores. Vagos e fugidios.
A calçada do general está vestida de luzes de antes das cinzas.
Um rio de sangue, subterrâneo. Não é possível lavar um rio, lembra-me o meu guardião.
Crescem mais rios subterrâneos sob a casa de passar as tardes.
De noite os nomes resistem. Por isso inventamos sombras.