quinta-feira, dezembro 25, 2003


Meaume, o gravador, morreu em Utrecht, aos 50 anos, nos braços de Marie Aidelle.

quarta-feira, dezembro 24, 2003


Sob a casa de passar as tardes, um rio (mais um?) reduz as margens. Na calçada do general, esvai-se a luz.

O meu guardião pede-me para lhe contar uma história. “Era uma vez um rio...”


Para um lado ou para o outro? Se alguém sabe a resposta, não a partilha. O meu guardião rasga papéis inúteis.

Uma partícula de dúvida aniquila um gesto. E a dúvida é: como ter a certeza da decisão de um gesto?

Quantas vezes subiste e desceste a calçada do general? Faço esta pergunta inutilmente – se tivesse resposta também ela não guardaria a chave do enigma. Partiste. Eis um acontecimento tão indeclinável como um rio preso ao seu destino. E palavras a mais.

A casa de passar as tardes é frágil. Sabê-lo, fortalece-a.

terça-feira, dezembro 23, 2003


Vinho tinto aquecido numa rocha ao rubro. Um acorde de viola de arco. O sexo húmido.

Se desistir não chego lá. Se perseverar também não.

Nem um som. Nem um gesto. Noite densa.

Passamos muito tempo a inventar perguntas. Ontem foi a minha vez.

segunda-feira, dezembro 22, 2003


O meu guardião não sairá nunca da casa de passar as tardes. Nem mesmo quando a sua cor e a das paredes se confundirem.

Há um tempo para tudo, dizem. E depois, sempre, o embaraço de um gesto fora de tempo.

sábado, dezembro 20, 2003


Por penúria de matéria refaço mais uma vez o inventário.

Também conto palavras. Em cada contagem uma perda. O dilema é: emudecer ou arriscar.

A pergunta já não é: qual será a última palavra? Mas: onde estará?


Andamos, eu e o meu guardião, confundidos com os rios. Voláteis. De humores. Vagos e fugidios.

A calçada do general está vestida de luzes de antes das cinzas.

quinta-feira, dezembro 18, 2003


Um rio de sangue, subterrâneo. Não é possível lavar um rio, lembra-me o meu guardião.

Crescem mais rios subterrâneos sob a casa de passar as tardes.

De noite os nomes resistem. Por isso inventamos sombras.