quarta-feira, dezembro 31, 2003


A quietude já não pertencerá a este tempo. São inúteis todas as palavras. Todos os corpos.


Quando estão serenos, os rios acomodam-se num sentido comum – arriscam-se a percorrer juntos todo o caminho da morte.


O tempo dissolve os ângulos da casa de passar as tardes. As paredes cobertas de verdete exsudem em espasmos lentos.

Para trespassar corpos, as palavras vomitam o mundo de trás para a frente.

Um corpo enrijece com a secura das palavras.

O meu guardião inventa um sorriso para findar a noite.

terça-feira, dezembro 30, 2003


O meu guardião quer abrir um buraco no chão e sorver um rio.

segunda-feira, dezembro 29, 2003


Os rios subterrâneos conjugam-se em labirinto. A foz como enigma comum.

domingo, dezembro 28, 2003


Uma falha é sempre a última falha. De umas vezes, morre-se. De outras, não.

Na calçada do general, as casas estão ligadas aos seus rios por longas linhas finas e invisíveis.


sábado, dezembro 27, 2003


Nas costas, no exacto instante de um beijo, o calor do sol de um verão tardio.

sexta-feira, dezembro 26, 2003


Lembro-me: sugámos laranjas azuis. Sob uma tempestade. Não me lembro se rimos.

A água dos rios subterrâneos agita-se. No firmamento, uma lua inesperada.

quinta-feira, dezembro 25, 2003


Como fazer uma pergunta com uma palavra cindida?

Meaume, o gravador, morreu em Utrecht, aos 50 anos, nos braços de Marie Aidelle.

quarta-feira, dezembro 24, 2003


Sob a casa de passar as tardes, um rio (mais um?) reduz as margens. Na calçada do general, esvai-se a luz.

O meu guardião pede-me para lhe contar uma história. “Era uma vez um rio...”


Para um lado ou para o outro? Se alguém sabe a resposta, não a partilha. O meu guardião rasga papéis inúteis.

Uma partícula de dúvida aniquila um gesto. E a dúvida é: como ter a certeza da decisão de um gesto?

Quantas vezes subiste e desceste a calçada do general? Faço esta pergunta inutilmente – se tivesse resposta também ela não guardaria a chave do enigma. Partiste. Eis um acontecimento tão indeclinável como um rio preso ao seu destino. E palavras a mais.

A casa de passar as tardes é frágil. Sabê-lo, fortalece-a.

terça-feira, dezembro 23, 2003


Vinho tinto aquecido numa rocha ao rubro. Um acorde de viola de arco. O sexo húmido.

Se desistir não chego lá. Se perseverar também não.

Nem um som. Nem um gesto. Noite densa.

Passamos muito tempo a inventar perguntas. Ontem foi a minha vez.

segunda-feira, dezembro 22, 2003


O meu guardião não sairá nunca da casa de passar as tardes. Nem mesmo quando a sua cor e a das paredes se confundirem.

Há um tempo para tudo, dizem. E depois, sempre, o embaraço de um gesto fora de tempo.

sábado, dezembro 20, 2003


Por penúria de matéria refaço mais uma vez o inventário.

Também conto palavras. Em cada contagem uma perda. O dilema é: emudecer ou arriscar.

A pergunta já não é: qual será a última palavra? Mas: onde estará?


Andamos, eu e o meu guardião, confundidos com os rios. Voláteis. De humores. Vagos e fugidios.

A calçada do general está vestida de luzes de antes das cinzas.

quinta-feira, dezembro 18, 2003


Um rio de sangue, subterrâneo. Não é possível lavar um rio, lembra-me o meu guardião.

Crescem mais rios subterrâneos sob a casa de passar as tardes.

De noite os nomes resistem. Por isso inventamos sombras.

terça-feira, dezembro 16, 2003


No alto da cidade deixei palavras em equilíbrio precário. Em baixo, o rio – entre rios.

Na casa de passar as tardes, especula-se: com quantas palavras se faz um rio?

Não me decido: é casa ou prisão? Ou: uma não existe sem a outra? Ou: é tudo uma questão de pronúncia?

O meu guardião: uma casa faz-se de firmezas. Eu: com quantas, exactamente?

quinta-feira, dezembro 11, 2003


Não mordas as palavras por dentro, ataca o meu guardião, o centro é demasiado amargo. Eu sei, mas agora não posso parar.

Na China fabricam cadernos de capa vermelha com uma rosa, vermelha, em baixo relevo.

Falta-me um rio de sombras. E a ameaça de uma tempestade. Recomeçar tudo.

Um corpo vazio fere. A escama das palavras fere – a ordem dos factores não é arbitrária.

Ou o contrário: um turbilhão de palavras num corpo sem ar. Ou o contrário.

domingo, novembro 23, 2003


A calçada do general continua triste – mas agora tem luzes falsas penduradas em arcos de ferro. O meu guardião rumina pensamentos de sabotagem.

O meu guardião olha há várias horas para uma tampa de caneta. É de temer o pior.

Um poeta procura decifrar um corpo. De mãos nuas e ainda com cinza nos olhos.

Anoitece na casa se passar as tardes. Colamo-nos às paredes e esperamos pelo primeiro grito.

Perscruto sombras no negro das paredes. Antigamente, vertiam copiosas lágrimas.

Acendo um livro – mais um. As cinzas correm para o rio mais próximo.

Em tempos, o meu guardião aprendeu a arte de enxertar rios. Agora é a minha vez.

Onde guardaste a memória? O meu guardião é um ser infinitamente paciente.

sexta-feira, novembro 21, 2003


Roubei (quase, quase): tenho um dia para a troca. Uma violência num corpo em falta.

Cal. Cal a abrir noites.

terça-feira, novembro 18, 2003


Hoje é dia do teu aniversário, diz o meu guardião. Como sempre, acredito nele.


Uma velha, numa casa só com noites, decide o doloroso começo do fim.


terça-feira, novembro 11, 2003


O meu guardião perdeu o seu caderno diário azul. Folhas imaculadamente em branco. Uma vida perdida. Aconchego-me mais no escuro. Respeito a sua dor.

Regresso de outra casa. Tal como a nossa, erguida com palavras. Tal como a nossa, a refazer fundações. Massa feita de corpos. A morte entre as fissuras.

Mordo uma laranja ao fim da tarde. E mordo. O sabor é sempre o mesmo. É mentira.

A marca na parede. O canto obscuro do quarto. Um não a ricochetear nas paredes. O crânio a explodir.

Tapa-me. Tenho frio. Sempre o mesmo frio. Tapa-me. Tapa-me. Tenho frio.

O rio de lava ascende à calçada e cobre-a de cinza. A casa desloca-se. Como o mundo. Perto da foz, agulhas de gelo.

Um xilofone com teclas de água. O meu guardião à procura de música.

Subtraí uma palavra ao mundo. Uma só. Inominável pedaço de carne. E ainda sangra.

domingo, novembro 09, 2003


Profecia: a menor distância entre dois rios é uma palavra exacta.

sábado, novembro 08, 2003


O tempo distende-se. Compacta-se. Assim passa os dias o meu guardião. Com os fios do tempo a tecer vazios.

Junto à casa de passar as tardes há outras casas. Enxames de vozes. Retinir de vidros. Silenciam-se ao chegar da noite.

Hoje trouxe o cansaço das grandes planícies. E cheiros de manjerona e alecrim. Foi preciso um rio para me recompor.

O meu guardião mede as palavras do dia. Entre os espaços em branco adormece. À noite finge cansaço. E eu finjo acreditar.

Sob a casa de passar as tardes corre um rio de lava. E nos céus um alarme de mudança.

Há segredos nos textos. Textos secretos, contraria o meu guardião. Controvérsia antiga.

Um corpo dói, quando se desperdiça. Doença das palavras, chama-lhe o meu guardião.

Todos os dias o meu guardião sacode o seu pó de ouro.

Digo: não sei. E depois falam-me com palavras frouxas.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Afectos (36) - Dom João


Dom João, de Odon von Orvath, pela Escola de Actores do Cendrev, encenação de Tiago de Faria.
Sábado a Segunda (8 a 10 deste mês), no Teatro da Garagem.


quinta-feira, novembro 06, 2003

Na Casa de Passar as Tardes (1)


Subo a calçada do general. Poupo palavras. Regresso. Confirmo a morada. A casa de passar as tardes. O guardião consome oxigénio. Saúdo-o. Na calçada começa a rolar uma esfera de cinza. A náusea vem depois.

Perto do rio Mondego há uma casa feita de palavras. Um castor velho ocupa-se a suprimir-lhe as excrescências.

Um texto habitado por fantasmas. Reconhece-se pelo óxido de ferro.

O concon é um peixe-crustáceo. A sua captura é um jogo de sedução. Devolve-nos o passado e fere o sabor. Não deveria ter nome.

Uma vontade de chorar quando o corpo se excede. A morada torna-se habitável. Perto do júbilo.

A chuva desagrega a cidade. É preciso olhar de novo. Passado o engano, abrigo-me no escuro.

Ao guardião, no seu elemento, entrego as palavras. Todas as palavras. Próximas do limite.
Falamos sobre limites. Sobre elementos. Sobre repetições.
Amanhã, o guardião cumprirá, renovando, o seu elemento. Partirei em busca de outras águas. E a eterna dúvida será a nossa comum perturbação. E agora, na noite, pode esboçar-se o risco infinito da morte. À superfície das águas.

Um corpo tem as palavras exactas. E não se diz.

Fundo. Uma lágrima abre fundo um sulco. Por vezes invisível. Por vezes descoberto tarde de mais.

Amanhã não morro. Prometo.

O meu guardião e eu: partilhamos a mesma cela.

A água a rasar os pés. A beijar a casa.

Queimo oxigénio para separar as palavras. Afastar umas das outras até ao nascer da luz.
Queimo pontes e de olhos vendados atravesso rios.

A viagem é caminhar para a perda. No regresso solto as escamas. O cheiro de perto do fim.

E o meu guardião confirma: decomposição molecular dos sentidos. Insubstância da gramática.

A casa de passar as tardes não tem raízes. Mas sobram-lhe galhos. Em certas horas do dia são-lhe acrescentados dedos. Pequenos artefactos quase inúteis.

Breves fracassos. Nunca as promessas se cumprem.

Na calçada do general o tempo escorre na pressa de apagar os passos perdidos.

O meu caminho de sempre é só meu. Cheio de lugares comuns – mas desabitados. Ainda.

Escrevo sobre as vossas palavras, os modos de se mostrarem ao mundo – com outras palavras. Subjugadas, as minhas e as vossas, à vertigem dos desencontros. O sorriso do meu guardião, como sempre, impenetrável.

Não devo nomear os rios. Nem as sombras.

As palavras servem-se frias – como os corpos antigos.

A palavra fere o flanco. Um modo de dizer – silenciar.

Duro, duro é o dizer. Pesadelos de mandíbulas. Nós estilhaçados.

O meu guardião conta os dias. Assegura a compactação dos micro-organismos. Confirma a declinação da luz. Já disse: habitamos a mesma cela.

Uma poeira de adiamentos sobre os móveis na casa de passar as tardes. Observo os traçados, pouco nítidos, de algumas deambulações erráticas. Uma arqueologia perigosa. Há sempre à espreita um alçapão falso.

Gosto de enigmas. Troco-os com o meu guardião. Especialmente de noite, à luz de um cigarro.


(nome dado pelo meu guardião a este conjunto de palavras escritas entre 24 de outubro e hoje: Na Casa de Passar as Tardes. Continuaremos, depreendi do seu sorriso)

quarta-feira, novembro 05, 2003


O meu guardião conta os dias. Assegura a compactação dos micro-organismos. Confirma a declinação da luz. Já disse: habitamos a mesma cela.

segunda-feira, novembro 03, 2003


O meu caminho de sempre é só meu. Cheio de lugares comuns – mas desabitados. Ainda.

Escrevo sobre as vossas palavras, os modos de se mostrarem ao mundo – com outras palavras. Subjugadas, as minhas e as vossas, à vertigem dos desencontros. O sorriso do meu guardião, como sempre, impenetrável.

Não devo nomear os rios. Nem as sombras.

As palavras servem-se frias – como os corpos antigos.

A palavra fere o flanco. Um modo de dizer – silenciar.

Duro, duro é o dizer. Pesadelos de mandíbulas. Nós estilhaçados.

domingo, novembro 02, 2003


A água a rasar os pés. A beijar a casa.
Queimo oxigénio para separar as palavras. Afastar umas das outras até ao nascer da luz.
Queimo pontes e de olhos vendados atravesso rios.

A viagem é caminhar para a perda. No regresso solto as escamas. O cheiro de perto do fim.

E o meu guardião confirma: decomposição molecular dos sentidos. Insubstância da gramática.

A casa de passar as tardes não tem raízes. Mas sobram-lhe galhos. Em certas horas do dia são-lhe acrescentados dedos. Pequenos artefactos quase inúteis.

Breves fracassos. Nunca as promessas se cumprem.

Na calçada do general o tempo escorre na pressa de apagar os passos perdidos.

sábado, novembro 01, 2003


O meu guardião e eu: partilhamos a mesma cela.

sexta-feira, outubro 31, 2003


Amanhã não morro. Prometo.

terça-feira, outubro 28, 2003


Fundo. Uma lágrima abre fundo um sulco. Por vezes invisí­vel. Por vezes descoberto tarde de mais.

segunda-feira, outubro 27, 2003


Um corpo tem as palavras exactas. E não se diz.


Ao guardião, no seu elemento, entrego as palavras. Todas as palavras. Próximas do limite.
Falamos sobre limites. Sobre elementos. Sobre repetições.
Amanhã, o guardião cumprirá, renovando, o seu elemento. Partirei em busca de outras águas. E a eterna dúvida será a nossa comum perturbação. E agora, na noite, pode esboçar-se o risco infinito da morte. À superfície das águas.


A chuva desagrega a cidade. É preciso olhar de novo. Passado o engano, abrigo-me no escuro.

sábado, outubro 25, 2003


Uma vontade de chorar quando o corpo se excede. A morada torna-se habitável. Perto do júbilo.

sexta-feira, outubro 24, 2003

Histórias para a Inês (10)


O Ladrão de Palavras

Pai, acho que há um ladrão na Escola! O Pai não ouviu, estava com aquela cara de pensar na vida. Acho que há um ladrão na Escola! – gritou a Menina outra vez. Um ladrão? E roubou o quê?, perguntou o Pai, ainda um poucochinho distraído. Não tenho a certeza… Olha, vou contar-te o que aconteceu hoje. O Miguel sabes?, aquele mais estarola?, perguntou à senhora Professora por que é que não havia um Deus preto. A senhora Professora abriu a boca e depois parecia que não saía nada, até pensei que ela ia desmaiar. Mas depois disse: “Ó Miguelito, não tenho palavras para te responder.” Eu primeiro pensei que ela tinha perdido as palavras, mas depois lembrei-me que ela está sempre a dizer-nos que nunca perde nada e que nós devemos arrumar tudo muito bem. Então, se não perdeu as palavras, pensei eu, é porque alguém lhas roubou, não achas, Pai? Talvez… ia o Pai a dizer, mas a Menina deu um grito: Já sei! Foi no bairro dela que acho que é muito grande e escuro, na minha Escola não deixam entrar os ladrões! Houve um bocadinho de silêncio. Depois, a Menina perguntou ao Pai: Por acaso, não tens umas palavrinhas a mais e que não te façam falta?


Subo a calçada do general. Poupo palavras. Regresso. Confirmo a morada. A casa de passar as tardes. O guardião consome oxigénio. Saúdo-o. Na calçada começa a rolar uma esfera de cinza. A náusea vem depois.

Perto do rio Mondego há uma casa feita de palavras. Um castor velho ocupa-se a suprimir-lhe as excrescências.

Um texto habitado por fantasmas. Reconhece-se pelo óxido de ferro.

O concon é um peixe-crustáceo. A sua captura é um jogo de sedução. Devolve-nos o passado e fere o sabor. Não deveria ter nome.

Diário


É este o perigo, creio eu, quando se faz um diário: exagera-se tudo, espia-se de mais, excede-se constantemente a verdade.
Jean-Paul Sartre, A Náusea

quinta-feira, outubro 23, 2003

Espero...


O meu computador ardeu na última sexta-feira. Agora, um novo e a esperança de recomeçar esta vidinha...

quinta-feira, outubro 16, 2003

quarta-feira, outubro 15, 2003

ABERTOS ESTÃO CAMINHOS (1)


Primeira Jornada: nhe’ ē porā

Os índios guarani, hoje quase inteiramente dizimados, perdidos algures nas florestas entre o Brasil e o Paraguai, são, ou foram, grandes senhores da Palavra: Belas Palavras - nhe’ ē porā – para se dirigirem aos deuses. Os seus karai, profetas pré-colonização, proclamavam a necessidade de abandonar este mundo e atingir a Terra sem Mal ywy mara ey. O habitante da Terra sem Mal recusa o Uno – o Mal, o sinal do Finito; é sem dúvida o homem, mas é também o duplo do homem, um deus. O Bem não é o múltiplo, é o dois, simultaneamente o um e o seu outro. O dois que designa realmente os seres completos. O pensamento guarani pensa o mundo e a desgraça do mundo; procura abordar uma arqueologia do mal e estabelecer uma genealogia da desgraça.
A linguagem dos karai traduzia um desejo de sobre-humanidade. Uma linguagem próxima da linguagem dos deuses. Os sábios guarani souberam inventar o esplendor solar das palavras dignas tão só de se dirigirem aos divinos. Belas Palavras para atingir os sete firmamentos sobre os quais reina Nhamandu, o pai primeiro.

[ v. O Grã-Falar. Mitos e Cantos Sagrados dos Índios Guarani. Uma Sociedade que recusou o Estado, de Pierre Clastres, tradução de Luísa Neto Jorge, Lisboa, Arcádia, 1977 ]

terça-feira, outubro 14, 2003

"Minhas botas velhas, cardadas..."


O Ministro da Defesa convoca a malta com 18 anos para ir celebrar a defesa nacional aos quarteis e paga vigens e comedorias: quem não quiser aceitar o convite chupa com uma multa (50.000 a 250.000 escudos). Aconselho o Ministro que obrigue também a malta a cantar o Hino da Mocidade Portuguesa (com a respectiva multa para quem não souber a letra ou desafinar). Se ressuscitar o Movimento Nacional Feminino, as Senhoras poderão auxiliar na distribuição das sanduiches e vigiar quem queira aproveitar-se da concentração para trocar beijos e carícias. Se isto não for suficiente, ainda andam por aí alguns agentes da PIDE desempregados (os outros estão bem instalados em vários ministérios e empresas públicas, democracia oblige). A Pátria agradece reconhecida. Minhas botas velhas, cardadas...

Enetation


O serviço de comentários da Enetation só funciona como e quando quer. Para quem não tiver pachorra para os seus caprichos aconselho o uso do e-mail.

100.000


Cálculo: deve faltar cerca de 10 anos para este blogue atingir as 100.000 visitas.

Histórias para a Inês (9)


O Pátio que Rodopia

Era uma vez uma Menina, mas não era eu, estás a perceber, Pai?, disse a Menina que não era a Menina da história que esta Menina queria contar ao seu Pai. Assim não percebes, vou começar de outra maneira, está bem? E a Menina, sem deixar o Pai responder, começou assim: No pátio de uma escola brincavam os meninos e as meninas e de repente começou tudo a andar à roda muito depressa, tão depressa que ficava tudo misturado: árvores, bolas, leite com chocolate, iogurtes, vestidos, pães com manteiga – tudo, tudinho! Ninguém conseguia ficar de pé porque dentro das cabeças também se misturava tudo muito depressa. Então, uma das Vigilantes gritou para a tal Menina que não era eu, percebes, Pai?, gritou assim: “Ó Menina, acabe lá de fazer o seu tricô, não percebe que está a fazer tudo andar às voltas demasiado depressa?” A Menina disse que sim, parou e depois ficou tudo outra vez muito quieto e direitinho. Ah!, mas parece que a senhora Vigilante é que ficou com um dói-dói muito grande dentro dela. Percebeste, Pai? O Pai desta Menina, não a outra, disse que sim mesmo antes de adormecer.


Desenho da Inês (transformado)

quinta-feira, outubro 09, 2003

Às vezes a malta cansa-se...


Às vezes a malta cansa-se: imagens que não se vêem, comentários que teimam em não aparecer, links que desaparecem... Estranho e complicado mundo o da blogosfera!
Talvez seja mais confortável escrever na folha do sôr zé manel furnandes, não?


Ontem descobri o rosto de um blog - coisa rara?

terça-feira, outubro 07, 2003

"Um problema de estilo..."


Li o teu RE: e lembrei-me disto que escrevi há uns tempos:

Um milagre qualquer põe sombras nos teus olhos
um rimel especial para tornar castanho o olhar
sob a pressão das pálpebras indecisas
vieste assim triste é essa a sabedoria de prender
os corpos uma laranja que se solta
ao ritmo do coração desarranjado
as pessoas tristes não sabem soluçar
o pensamento está preso fundo muito fundo
e é por isso que apenas se deixam adivinhar
vieste assim triste como eu não sabia
foi ontem há muito tempo esquecemos
ficámos esquecidos a olhar o tempo que não há
trocámos longas cartas com ausência de luz
queimadas desfeitas nas nossas mãos
vieste assim triste e fiquei a olhar-te a pensar
na escuridão a soletrar palavras desconhecidas
vieste assim triste e virás repetidamente virás
até o meu olhar aprender a olhar o teu
através das persianas da minha cela
olho ao longe o mar que ainda brilha
penso em ti assim triste que não virás
nunca mais caminharei para ti?
(as sobras frias do peixe frito sobre a mesa).

(d'A Realidade Inclinada)


Histórias para a Inês (8)


O Jardim da Bivó

Prima Laura, no Domingo queres ir comigo ao Jardim da Bivó? A minha prima Laura tem a minha idade e chegou agora da cidade dela. Acho que lá não há jardins como o da nossa Bivó e se calhar é por isso que me diz sempre que prefere ficar em casa a brincar. Não sei. Mas também não me importo. Vou lá muitas vezes com a Mami e com a mãe dela que é filha da Bivó. A Tacha também gosta muito do Jardim da Bivó mas começa logo a escavar terra e a comer flores e então às vezes a Mami tem que a deixar fechada no carro. Na última vez que estivemos no Jardim da Bivó, a Vovó disse-me que a mamã dela devia estar triste porque as suas flores também estavam. E a culpa não foi da Tacha, juro, esteve sempre quietinha ao pé de mim. Eu até acho que estava também um bocadinho triste. Até me apeteceu chorar. Pusemos flores alegres e depois fomos lanchar. Não me apetecia comer nada. Estive sempre a pensar na Bivó. E disse à Mami e à Vovó que elas deviam dar à Bivó um jardim maior. A Mami disse-me que o melhor era eu comer o iogurte. Não percebi. Contei isto à priminha Laura e ela também não percebeu.


Aguarela da Inês

Cada acontecimento dá inteiramente razão ao que o precedeu.
Jean Baudrillard (As Estratégias Fatais)

sexta-feira, outubro 03, 2003

"A Força do Hábito", pela Truta, na Comuna


A TRUTA - Associação Cultural - apresenta:

A FORÇA DO HÁBITO de THOMAS BERNHARD

Teatro da Comuna, de 16 de Outubro a 2 de Novembro

A Força do Hábito. O seu tema são os conflitos existentes numa companhia de circo, gerados pela imposição do seu líder de ensaiar o Quinteto da Truta, de Schubert, com o objectivo de um dia fazer um concerto na pista. O desvio do praticante de circo para intérprete de música, no qual o ruído rebelde funciona como uma forma de contra poder, expõe em cena o teatro, num jogo de espelhos. Assim, evidencia-se mediante os mecanismos da paródia, as relações entre arte e poder, sob o pano de fundo existencial das personagens.

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA:
Encenação: Joaquim Horta
Cenografia: Marta Carreiras
Figurinos: Pedro Cardoso
Iluminação: Daniel Worm d¿Assunção
Design Gráfico: Paulo Augusto
Interpretação: Diogo Dória, Joaquim Horta, Paula Diogo, Raúl Oliveira, Rúben Soares
Produção Executiva: Mafalda Santos

INFORMAÇÕES GERAIS:

ENSAIO DE IMPRENSA: 10 de Outubro às 18h - Teatro da Comuna
DATAS DE APRESENTAÇÃO: 16 de Outubro a 2 de Novembro
HORÁRIO: De Quarta a Sábado 21H30, Domingo 16H
LOCAL: Sala das Novas Tendências do Teatro da Comuna, Praça de Espanha - Lisboa
PREÇO: 10 € (7,50 € p/ jovens até aos 25 anos, estudantes, maiores de 65 anos e profissionais do espectáculo)
MARCAÇÕES: Tm. 96 808 65 53
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: M/ 12 anos
APOIOS: IPAE/MC, Comuna - Teatro de Pesquisa, CML, Teatro Praga

Mais informações, contactar: Mafalda Camacho Santos - Produção Executiva (tm. 96 808 65 53)

quinta-feira, outubro 02, 2003

O corpo contado (6)




Sedução, s. Do lat. seductiōne-, «acto de pôr de parte; separação; sedução; corrupção». Em 1813, Morais.

Seduzir, v. Do lat. seducĕre, «levar à parte; puxar para si; dividir, repartir; seduzir, corromper». Séc. XVI, segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Sensual, s. Do lat. sensuāle-, «relativo aos sentidos; dotado de sensação». Séc. XV: «E sabe que o petito sensual nunca se asenhora da razam...». (...) o sentido dever ter aparecido por intermédio do fr. onde a acepção de «que procura os prazeres dos sentidos» já se documenta no séc. XVI.

Sensualidade, s. Do lat. sensualitāte-, «faculdade de sentir, de perceber sensações», com modificação semântica posterior, imposta pelo novo sentido de sensual. Séc. XV: «Na memoria faço duas deferenças: hũa que pertecce a alma racional, e outra aa senssualidade» (D. Duarte, Leal Conselheiro, cap. 2, p. 13).

Sensualismo, s. Do fr. sensualisme. Séc. XIX: «... no andar, tinha algumas vezes um não sei quê que denunciava apetites de um sensualismo profundo e veemente» (Camilo, Fanny, cap. 28).

Pudicícia, s. Do lat. pudicĭtĭa, «pudicícia, castidade, pudor». Séc. XVI, segundo Morais.

Pudor, s. Do lat. pudōre-, «sentimento de pudor, de vergonha, de reserva, de delicadeza, de timidez; sentimento moral, moralidade, honra; ponto de honra, honra; vergonha, desonra, opróbio»; por via culta. Séc. XVI, segundo Moraes.

Pudendo, adj. Do lat. pudendu-, «diz-se daquilo que faz corar, vergonhoso, infamante». Em 1813, Moraes.

Pudente, adj. Do lat. pudente-, «que tem pudor, modesto, reservado, discreto».

Pudibundo, s. Do lat. pudĭbundu-, «que sente vergonha, confusão; vergonhoso, infame. Séc. XVII, segundo Moraes.

Pudico, adj. Do lat. pudĭcu-, «casto, tímido, pudico, virtuoso, modesto; puro, honesto, irrepreensível». Séc. XVI: «A victoria trazia, & presa rica // Presa da Egípcia linda & não pudica», Lus., II, 53.
in Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, Lisboa, 1987


Vincent Serbin, 1992

Sedução. Episódio tido por inicial (embora possa ser reconstruído depois) no decurso do qual o sujeito apaixonado se sente “seduzido” (capturado e encantado) pela imagem do objecto amado (nome popular: amor à primeira vista; nome sábio: paixão).
Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, Lisboa, ed. 70, s.d. (1977): 226

O corpo contado (5)



A orientação dos pêlos no corpo do homem contemporâneo obedece a uma configuração tal que a região dos ombros seria aumentada quando se eriçassem; isto no caso de ainda hoje possuirmos uma pele como a doas animais. É mais possível que isto se processasse deste modo nos nossos antepassados, como nos demonstra hipoteticamente uma reconstrução de P.Leyhausen.
Nesta reconstrução transporta-se para um antepassado hipotético o sentido de orientação dos pelos na zona do peito e das costas no homem contemporâneo, para mostrar a sua aparência provável quando eriçava os pêlos. Os homens muito cabeludos ainda hoje têm tufos de pêlos nos ombros. Mesmo com o desaparecimento da pele cabeluda, manteve-se no homem (macho) a tendência de salientar os seus ombros.


Nas mais diversas culturas o homem (macho) tem a tendência para salientar os seus
ombros pela moda. Em cima: índio waika; ao meio: actor kabuki (Japão); em baixo: Alexandre II da Rússia.


Laociano saudando


Modo de saudar das mulheres fulbas


Ifes (Yoruba) saudando o seu soberano


Um polícia da República Federal da Alemanha saudando o presidente francês De Gaulle


Saudação a um dignitário egípcio


Chimpanzé fêmea saudando um macho. A inclinação é provavelmente uma forma ritualizada do desafio para o cuidado social da pele.

Imagens e textos de Amor e Ódio - História Natural dos Padrões Elementares do Comportamento, de Irenäus Eibl-Eibesfeldt, Lisboa, Bertrand, 1977 (Prefácio de Bracinha Vieira Tradução de Paulo Jorge Roovers de Almeida). Tudo gostosamente roubado às Luzes da Silvana.

O corpo contado (4)


Chegado a um tal ponto de estilização, um gesto faz um autor.




Fotogramas de filmes de Roberto Flaherty: Moana, Nannok e Man of Aran
(texto e imagens in Catálogo - organização e texto de José Manuel Costa - do Ciclo dedicado a Flaherty pela Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1984)

terça-feira, setembro 30, 2003

Afectos (35)


Fandango

Estava tudo certo nele: o sorriso,
o modo lento de chegar
ao sítio onde as cervejas
me arrefeceriam para sempre
o coração. Só lhe faltavam as pernas,
que não pude saber como perdera.
Era o dono da taberna, do Fandango,
que eu frequentava nos intervalos
do liceu, sozinho, ou muito depois das aulas.
Às vezes almoçava lá, sabendo que
seria o único a fazê-lo e gostando disso.
O consumo de álcool não dependia,
nesses anos, de quaisquer decretos-lei
sobre a idade. Espaçosa, asseada,
parecia-me a taberna ideal
para quem tinha, a contragosto,
dezasseis anos e nenhum poema.

Da última vez, recebeu-me apenas a senhora.
Perguntou-me se eu sabia. Não, não sabia
que ele tinha morrido «tão novo, coitado».
Ser «novo» adquiria nos lábios a força
do muito amor, pois ultrapassara já os setenta.
Mas eu, talvez mais velho, senti-me fulminado
por esse gesto de rara ternura. Só não regressei
porque, alguns dias depois, aporta apareceu fechada.
Nunca saberei se foi ao seu encontro, achando
que uma cadeira de rodas não era companhia de homem.

A morte é como os taberneiros: não pergunta a idade.
Serve-nos, indistintamente, cicuta em copos lavados
e convida-nos de rosto no chão para o último fandango.

Manuel de Freitas, Beau Séjour, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003: 39-40



América


Estou cansado de combater. Os nossos chefes foram mortos. Os velhos morreram todos. São os jovens quem diz que sim ou que não. Aquele que chefiava os jovens morreu. Está frio e não temos mantas. As crianças estão a morrer geladas. O meu povo, o pouco que resta dele, fugiu para as montanhas e não tem mantas nem comida. Ninguém sabe onde eles estão - talvez a morrer gelados. Queria ter tempo para procurar os meus filhos e ver quantos deles posso encontrar. Talvez os encontre entre os mortos. Ouçam-me os meus chefes. Estou cansado. O meu coração está doente e triste. Daqui, onde o sol agora está, não mais lutareis.
José, chefe dos Nez Percé


Índio Nez Percé

O Grande Espírito fez-nos a ambos: deu-vos terras e deu-nos terras; vós viestes para aqui e nós respeitámo-vos. Quando viestes, ao princípio, não éramos muitos e vós poucos, agora vós sois muitos e nós estamos a tornar-nos muito poucos e muito pobres. Eu represento a nação Sioux. Nós não queremos riquezas, mas queremos os nossos filhos ensinados e criados convenientemente.
Nuvem Vermelha, Chefe dos Sioux


Oásis Sioux

Histórias para a Inês (7)


O Meio do Mundo

Era uma vez uma Menina que tinha uma linda cadela chamada Tacha. Chamava-se assim porque a mãe dela era russa e chamava-se Natacha.
Um dia, a Menina foi à praia com os seus Pais e a Tacha. Deitaram-se nas suas toalhas e a Tacha começou logo a escavar um buraco na areia. Como tinha umas patas muito grandes salpicava de areia toda a gente. O Pai e a Mãe da Menina até ficaram parecidos com estátuas!
A Tacha não parava de escavar. Escavou tanto e tão depressa que a Menina deixou de a ver. Chamou-a mas ela não voltava. Resolveu então entrar no buraco. Andou muito tempo mas não via a Tacha, só a ouvia a ladrar. Este buraco deve ir até ao meio do mundo, pensou a Menina. De repente, lá estava a sua querida Tacha. Muito quietinha... a roer uma enorme montanha de ossos! Isto deve ser mesmo o centro do mundo da Tacha, disse a rir a Menina. Enquanto a Tacha comia, brincou às casinhas com os ossos. A Tacha não se importava, havia ali tantos! Quando a Tacha acabou de comer voltaram para a praia. Os Pais da Menina continuavam lá como estátuas de areia. A Tacha sacudiu-se com muita força juntos deles e eles acordaram a dizer: Está tanto calor! Vamos todos nadar! E foram.



Esplendor...


Ontem, morreu Elia Kazan

Nathalie Wood, em Esplendor na Relva

segunda-feira, setembro 29, 2003

O corpo contado (3)


A decifração da vida passa por um corpo.
Joaquim Manuel Magalhães

canon EOS1000 - ------- -© ledacruz



Uma lágrima.

domingo, setembro 28, 2003

Ratos


[8]

Zute!
O aço da mola
dá-lhe o golpe quase mortal.
Terminada a agonia lenta
os seus camaradas vão
saboreá-lo à sobremesa
depois do prato principal
de pão besuntado de banha.


[9]

O brilho purpurino num par de olhos
é o brilho de um grito de clemência
- de quem tem o pescoço
sob a mola de aço de uma ratoeira.
Os olhos são
mais azulados
quando come
o pão engordurado
a banha ou azeite.
Primeira lição de teoria das cores.


[Os poemas são do meu livro Mundo de Aventuras: a foto surripiei-a ao Chapeleiro Maluco mas tirei-lhe a cor]

sábado, setembro 27, 2003

Aprender, aprender sempre...


No Inquérito Os Meus Livros, no Mil Folhas de hoje, é a vez do actor Rogério Samora responder. Aprendi o seguinte (aprende-se sempre...):
- É possível não gostar de poesia e gostar do que escreve Herberto Helder. Dúvida: será poesia o que escreve Herberto Helder?
- A Bíblia é um livro que se pode deixar de ler a meio (presumo que em circunstâncias "normais" o Livro começa a ler-se numa ponta e só se acaba na última página).
- Os bons livros são aqueles que podem adaptar-se ao cinema ou à televisão. Exemplos do actor: "Equador", de Miguel Sousa Tavares e "O Memorial do Convento", de José Saramago. Citação: "Grande filme! Seria? Não há é realizador nem produtor nem dinheiro. Eh, eh, eh... nem vontade por parte da política cultural deste país que teima em não existir. Será que Portugal existe? Um país sem identidade cultural e sem respeito pela sua cultura não existe." Pois não....
- Herberto Helder e José Saramago são "compatíveis...

Também já tinha aprendido outras coisas com este actor. No Y de 28 de Fevereiro deste ano, Samora, na altura a interpretar, a solo, uma adaptação de Ricardo III, de Shakespeare diz isto: "(...) Até digo mais: se houvesse um convite para fazer a peça com 40 personagens eu não aceitava. Porque acho a personagem fascinante, mas acho a peça uma seca. Shakespeare é um grande escritor mas às vezes as histórias são muito infantis: o mal é castigado, o bem prevalece. (...)".

Próximo projecto teatral de Rogério Samora: "Berenice" de Racine...

Amina Lawal Absolvida



Amina Lawal Absolvida
Por MÁRCIA OLIVEIRA
Público, Sexta-feira, 26 de Setembro de 2003

O Tribunal de Recurso do estado de Katsina, norte da Nigéria, decidiu ontem absolver Amina Lawal, condenada em Março de 2002 à pena de morte por lapidação, por ter cometido o crime de adultério. Depois de dois adiamentos (o primeiro recurso estava marcado para Março deste ano), quatro dos cinco juízes optaram por "perdoar" Amina com base em questões processuais.
Os argumentos que levaram à decisão prendem-se com o facto de a arguida, à altura da sua condenação, não ter tido qualquer representação legal, para além do facto de ter sido apenas um juíz a presidir ao julgamento, quando a lei nigeriana exige um mínimo de três juízes para poder ser tomada uma decisão.
Durante o julgamento, que durou apenas uma hora, os juízes lembraram ainda que Amina, que não foi apanhada em flagrante, também não teve tempo para compreender as acusações a que estava a ser sujeita.
À saída do tribunal, Hauwa Ibrahim, uma das advogadas de defesa, afirmou que esta foi "uma vitória da justiça, uma vitória daquilo em que acreditamos: a dignidade e os direitos humanos".
Apesar de esta ter sido a melhor notícia que Lawal podia ter recebido, a Amnistia Internacional (AI), ainda que satisfeita com o resultado, não se conforma com os argumentos usados pelo colectivo de juízes para justificar o veredicto. Em declarações ao PÚBLICO, Teresa Tavares, coordenadora do Núcleo LGBT e Mulheres da Secção Portuguesa da AI, lembrou que "este caso nem deveria ter sido presente a tribunal", uma vez que considera inadmissível que "relações sexuais entre adultos sejam consideradas crime". "E muito menos que seja prevista uma forma de punição tão degradante e contra a dignidade humana como é a pena de morte", adiantou.
O facto de terem sido questões processuais a motivar a sentença inquietam a Amnistia uma vez que "o sistema [da Sharia, lei islâmica] não foi posto em causa". Teresa Tavares lembrou ainda que, com a decisão que libertou Amina, "apenas foi ganha uma batalha, mas falta ainda ganhar a guerra", que é a eliminação daquela legislação.
A Sharia, lei islâmica que foi introduzida em doze estados do norte da Nigéria em 1999 e 2000, prevê penas de morte por apedrejamento para crimes de adultério e sodomia, e amputação de membros para crimes de roubo, e gerou um forte movimento de contestação em todo o mundo. Em declarações à Associated Press, François Cantier, advogado do grupo francês Advogados sem Fronteiras, lembrou mesmo que "a pena de morte como punição de crimes de adultério é contrária à Constituição nigeriana" e que "a pena de morte por lapidação é contrária aos tratados internacionais contra a tortura que foram ratificados" por aquele país africano.
Amina Lawal foi a terceira pessoa a receber uma resposta positiva ao seu pedido de recurso, de entre as cinco que foram condenadas na Nigéria à morte por lapidação. Por resolver está ainda o caso de um casal que aguarda uma resposta do tribunal ao seu pedido de recurso da sentença. Fatima Usman e Ahmadu Ibrahim ainda está pendente no tribunal de Recurso de Minna, no estado de Niger.
Para além dos casos de condenação à morte por apedrejamento, a Sharia já fez cumprir vários castigos na Nigéria. É o caso de um homem que foi enforcado por ter assassinado uma mulher e os seus dois filhos e de três outros que foram amputados por terem roubado uma cabra, uma vaca e três bicicletas.
"Isto mostra como continua a ser necessário o trabalho em prol da liberdade de expressão de homens e mulheres, bem como do direito de associação, contra a discriminação e pelo direito à privacidade", afirma um comunicado da AI.
Daí que os dirigentes da Amnistia apelem ao governo nigeriado e à sociedade civil para que aproveitem este oportunidade para banir a pena de morte e abrandar a pressão desnecessária sobre o povo daquele país.
O resultado do julgamento de Amina Lawal já era esperado pela comunidade internacional, mas os advogados da acusação podem ainda recorrer da decisão. O recurso, no caso de ser apresentado, tem um prazo de 30 dias para dar entrada no tribunal.

Orgasmo vertical (3)




[v. posts de 30 de agosto, 4, 5 e 8 de setembro]

sexta-feira, setembro 26, 2003

"A minha mãe deu-me a vida, espero agora dela que me ofereça a morte"




UM DRAMA ABRE O DEBATE SOBRE A EUTANÁSIA EM FRANÇA
Por ANA NAVARRO PEDRO, em Paris
Público, Sexta-feira, 26 de Setembro de 2003

"A minha mãe deu-me a vida, espero agora dela que me ofereça a morte". Estas palavras terríveis são assinadas por Vincent Humbert, um jovem francês de 22 anos, tetraplégico, cego e mudo, num livro publicado ontem em França, "Peço-vos o direito de morrer" (editora Michel Lafon).

Marie Humbert tentou ajudar o filho a morrer. Quarta-feira, ao fim do dia, a mãe estava sozinha com Vincent Humbert no quarto do centro hospitalar onde o jovem paralítico está internado, e aproveitou para lhe administrar uma forte dose de barbitúricos pelo intermédio da sonda gástrica que o alimenta. Depois, ficou ao lado dele. Mas o pessoal médico apercebeu-se de uma queda do estado de saúde de Vincent, e colocou-o em reanimação. O filho ficou em estado de coma profundo, mas não está em perigo de vida.

Ontem de manhã, a mãe foi colocada em prisão preventiva "organizada em condições de protecção particulares para a tornarem o mais humana e serena possível", segundo o procurador. O advogado de família foi autorizado a visitar Marie Humbert, e encontrou-a num estado de "grande aflição". A mãe soube muito depressa que não tinha conseguido cumprir a sua promessa. Entre o suplício de ter tentado tirar a vida ao filho, e a angústia de o saber na impossibilidade de conseguir agora morrer, se sobreviver, a mãe ficou devastada. A meio da manhã, foi autorizada a recolher-se à cabeceira do filho. E de tarde, o Ministério Público decidiu libertar Marie Humbert - "a incriminação será feita a seu tempo" - traduzindo assim a desolação da justiça com um caso tão pungente. A mãe passou a noite num centro psicoterapêutico, numa decisão conjunta com o procurador.

"É dramático. Vincent disse sempre que queria morrer desde que encontrou um meio de comunicação, e Marie Humbert continua a querer o que o filho quer. Ninguém sabia, mas Vincent não queria estar ainda vivo quando o livro saísse", frisou o advogado da família, Hugues Vigier.

Nos dias que precederam a saída do livro, Marie Humbert tinha dito na rádio Europe1 que iria ajudar dentro em breve o filho a morrer, para respeitar a sua vontade e pôr assim um termo aos seus terríveis sofrimentos. Esta mãe que todas as testemunhas dizem "admirável", que abandonou tudo para se instalar na cidade onde o filho está internado, que sobrevive com pequenos trabalhos, e que passa todo o seu tempo livre ao lado dele, a fazer-lhe massagens para lhe aliviar as dores, a falar-lhe para o ligar à vida, era o último recurso de Vincent Humbert, que desde há três anos não tem cessado de pedir uma morte digna.

Um terrível acidente da estrada, em 2000, transformou o jovem bombeiro num legume, capaz apenas de uma ligeira pressão com a ponta de um dedo. Esta "capacidade" serviu-lhe para desfiar o alfabeto, fazer palavras, frases, e assim comunicar com a mãe e o pessoal do hospital que lhe ensinou esta técnica. Foi desta forma que "escreveu" o seu livro.

Sem hipóteses de qualquer melhoria, privado da vista, e sofrendo horrivelmente, pediu aos médicos para o ajudarem a morrer. Estes recusaram, recordando que a eutanásia é proibida em França. Em Dezembro último escreveu ao Presidente Jacques Chirac: "A lei dá-lhe o direito de indultar, eu peço-lhe o direito de morrer". Chirac recusou, e encorajou este jovem emparedado vivo na sua própria pele a "retomar gosto pela vida".

François de Closets, um escritor francês que assinou um livro sobre "O direito de morrer", acha "desumano que a sociedade tenha deixado uma mãe sozinha perante um pedido destes de um filho, sem qualquer recurso". Atacando a medicina, que "quis a todo o custo reanimar Vincent" depois do desastre, François de Clausets faz uma apreciação muito dura: "Se Vincent fosse filho de alguém importante, há muito que nos teria deixado. A desgraça dele é ser filho do povo".

Dois deputados, um da maioria de direita e outro da oposição de esquerda, pediram ontem conjuntamente uma evolução da legislação sobre a eutanásia em França.

quinta-feira, setembro 25, 2003

O corpo contado (2)


O Corpo do Outro

CORPO. Todo o pensamento, toda a emoção, todo o interesse suscitados no sujeito apaixonado pelo corpo amado.

1. O seu corpo estava dividido: de um lado, o próprio corpo – a pele, os olhos –, terno, caloroso, e, de outro, a voz, breve, moderada, sujeita a momentos de afastamento, uma voz que não oferecia o que o corpo oferecia. Ou então: de um lado, o seu corpo macio, morno, débil na sua justa medida, protector, fingindo-se acanhado, e, de outro, a voz – a voz, sempre a voz – sonora, bem definida, mundana, etc.
2. Assalta-me, por vezes, uma ideia: ponho-me a examinar longamente o corpo amado (...). Examinar quer dizer revistar: revisto o corpo do outro, como se quisesse ver o que há lá dentro, como se a causa mecânica do meu desejo estivesse no corpo adverso (pareço-me com esses garotos que desmontam um despertador para saber o que é o tempo). Essa operação processa-se de um modo frio e surpreso; estou calmo, atento, como se estivesse diante de um estranho insecto que subitamente deixo de recear. Certas partes do corpo são particularmente adequadas a esta observação: as pestanas, as unhas, a raiz dos cabelos, os objectos muito específicos. É evidente que estou então a fazer de um morto um fétiche. A prova está em que, se o corpo que examino sai da sua inércia, se se põe a fazer qualquer coisa, o meu desejo se modifica; se, por exemplo, vejo o outro pensar, o meu desejo deixa de ser perverso, torna-se imaginário, regresso a uma Imagem, a um Todo: amo novamente.

(Via tudo do seu rosto, do seu corpo, friamente: as pestanas, a unha do dedo do pé, a finura das sobrancelhas, dos lábios, o esmalte dos olhos, um determinado sinal, uma maneira de estender os dedos ao fumar; estava fascinado – não sendo o fascínio, em suma, senão a extremidade do desprendimento – por essa espécie de figura colorida, de faiança, vitrificada, onde podia ler, sem nada compreender, a causa do meu desejo.)


Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, Lisboa, Edições 70, 1981 (1977), 70: 96-7

S'il n'y a pas d'apparences...


S'il n'y a pas d'apparences de ce monde, on ne peut pas peindre des images de lui. On ne peut pas que peindre la lumière qui brüle ses formes.

Pascal Quignard, Terrasse à Rome (38)





Les hommes...


Les hommes désespérés vivent dans des angles. Tous les hommes amoureux vivent dans des angles. Tous les lecteures des livres vivent dans des angles.

Pascal Quignard, Terrasse à Rome (9)


"UNIVERSOS SENSÍVEIS"


"Um grão.
Dois grãos.
O deserto.
Tu.
Eu.
Habitação."


Rodin, foto de Christian Vicenty

quarta-feira, setembro 24, 2003

ALBERGUE DE IMAGENS


As imagens que aqui são colocadas teimam em não se deixar ver; saem do seu pobre quarto de dormir - pobre porque é gratuito - no hotel da villagephotos.com e talvez se percam pelo caminho, encantadas por outros príncipes e princesas; talvez resolvam alojar-se em blogues mais apropriados à sua real capacidade de sedução; não sei. A gradeço a ajuda dos ilustres habitantes da blogolândia para a resolução deste grave problema.

HISTÓRIAS PARA A INÊS (6)


A MULHER QUE NÃO SABIA

Era uma vez uma Mulher que vivia num País de Homens-Maus. Não gostavam dela e batiam-lhe muito. Então, um dia, resolveu fugir. Vestiu um manto e foi à procura de Países-Bons.
Durante a sua fuga, atravessou muitos Países-Estranhos. Um deles, estava coberto de Árvores que espetavam os seus Espinhos nas costas das pessoas. E a Mulher ficou com Espinhos Verdes nas suas costas.
De outra vez, procurou descansar no País-Que-Fabricava-O-Tempo. Mas os Homens-Tempo resolveram trocar o nariz e a boca da Mulher por um Relógio. Primeiro, a Mulher ficou muito triste. Mas depois começou a achar graça ter um Relógio na cara.
Andou, andou mais, e chegou a outro País, muito bonito. Não viu nem Homens-Maus, nem Árvores-de-Espinhos, nem Homens-Tempo. Viu apenas seis lindos Meninos e Meninas. Ficaram muito espantados. Nunca tinham visto ninguém como ela. Quem és tu?, perguntaram-lhe. E a Mulher disse, olhem, já nem sei! diz lá!, insistiram os Meninos e Meninas. E a Mulher disse-lhes, sou o que vocês quiserem que eu seja, pode ser? Eles disseram sim!, sim! e ficaram todos muito contentes.

HISTÓRIAS PARA A INÊS (5)


O LAGO DO OITO

Era uma vez uma Menina que não sabia desenhar o Oito. Apetecia-lhe chorar. E chorou. E o seu Pai chorava com ela. Porque era o seu Pai e porque gostava muito dela.
Quando acabaram de chorar, as lágrimas do Pai e da Filha formaram um lago no chão. Um lago baixinho, com pouca água, não chegava para nadar. Pararam de chorar e a água do lago ficou calminha, parecia mesmo um espelho. E a Menina e o Pai sorriram.
Depois, o Pai lembrou-se que podia ensinar a sua Filha a desenhar um Oito com dois círculos, como aqueles que fazem as gotas das lágrimas quando caem na água lisa do lago. É só juntar dois círculos, duas bolinhas iguais uma por cima da outra e… já está!, disse o Pai. E então a Menina experimentou desenhar com um lápis as duas bolinhas num papel e… foi fácil! Já sabia desenhar o Oito! Depois, ficou a olhar para o espelho de água que era o lago e onde se podia ver Ela e o Pai a sorrir!


Selo da Inês

O corpo contado



Joel-Peters Witkin

Humor and Fear, 1999. He met her through the Internet; she sent him her photograph. She’d been a gymnast, then a nude dancer, but after having her breasts surgically enlarged, she suffered toxic chock, with required the removal of her legs, fingers and breasts. Wishing to convert her tragedy in a similar way to Abundance, Witkin turned to comedy: Mickey Mouse ears and a brassiere made from plastic cones worn by racehorses. For him, the strategy restored the power. (Eugenia Parry)


Joel-Peters Witkin

Abundance, 1997. Her mother tried to abort her. Surviving her birth, she was abandoned. She lived outside Prague and decorated her apartment walls with pictures of body builders. As Abundance, she was transformed into something luxurious – an eighteenth-century sculpture. Witkin planted her in the urn; to him, she was a root, strong and tenacious. The American photographer’s celebration of her beauty amounted to the most attention she’d ever received. (Eugenia Parry)


O corpo dum homem é o seu bem, e quando ele faz oferenda do seu corpo ou da sua carne, ele faz com isso dom da única coisa que verdadeiramente lhe pertence...
(Mato-Kuwapi, índio sioux santee-yanktonai)



quinta-feira, setembro 18, 2003

PARAR PARA PENSAR

Interrompo isto por uns dias; devo voltar para a semana. Até lá.

HISTÓRIAS PARA A INÊS (4)

O VUM-VUM
Qual é o teu brinquedo preferido?, perguntou a Professora à Menina. É o Vum-Vum, respondeu ela. E a Professora fez uma cara igual à que todos os adultos fazem quando não percebem o que os meninos dizem mas têm vergonha de o mostrar. E, claro, a Menina nem lhe ligou. Ficou a pensar como o seu Vum-Vum em tantas noites a ajudara a viver. O seu Vum-Vum que deita aquele ar bom e faz rom-rom, rom-rom. Só é pena não ter pêlo macio como os gatos. Em que estás a pensar?, perguntou a Professora à Menina. A senhora Professora sabe se existem Vum-Vuns com pêlo macio como o dos gatos? Foi por causa desta pergunta da Menina que a senhora Professora, coitada, perdeu a cara.


Selo da Inês

AINDA BEM QUE VOLTASTE!

A Silvana voltou! Está aqui no LUZES.


Silvana da Costa


OHIYESA




Quando criança, aprendi a dar; uma tal graça, porém, perdi-a eu quando me tornei civilizado. Levava uma vida natural, ao passo que hoje vivo artificialmente. Naquele tempo, qualquer seixozito tinha para mim valor; qualquer árvore que crescia era para mim objecto de reverência. E hoje admiro, com o homem branco, uma paisagem pintada, cujo valor é estimado em dólares! É assim que o Índio se vê reconstruído, tal como as pedras naturais se vêem reduzidas a pó e transformadas em blocos artificiais, a fim de edificarem as paredes da sociedade moderna.
Os primeiros americanos associavam a sua altivez a uma singular humildade. A arrogância espiritual era coisa estranha à sua natureza e à sua instrução. Nunca ele pretendeu que o poder da palavra articulada fosse uma prova de superioridade em relação à criação muda; pelo contrário, esse poder constitui para ele um perigoso presente. Ele crê profundamente no silêncio – que é sinal dum perfeito equilíbrio. O silêncio é a balança e o aprumo absoluto do corpo, da mente e do espírito. O homem que preserva a unidade do seu ser mantém-se calmo e firme perante as tempestades da existência – nem uma folha de árvore se agita; nem uma ruga mexe à superfície do charco brilhante –, assim é, para o sábio iletrado, a atitude ideal e o comportamento na vida.
Se lhe perguntardes: “O que é o silêncio?”. ele há-de responder: “É o Grande Mistério! O silêncio sagrado é a sua voz!” E se perguntardes: “Quais são os frutos do silêncio?”, ele há-de dizer: “São o autodomínio, a verdadeira coragem ou a resistência, a perseverança, a dignidade e o respeito. O silêncio é a pedra angular do carácter”.
Fala de Ohiyesa, in Teri C. McLuhan, A Fala do Índio, Fenda, 1996: 85




quarta-feira, setembro 17, 2003

NÃO LEVEM A MAL...


É que por vezes apetece-me colocar aqui um letreiro como este:


(desenho da Inês colocado na porta da rua (escancarada) do nosso apartamento, quando a meio deste Verão quis afugentar eventuais indesejados enquanto assávamos sardinhas...)

Post dedicado ao Luís, com um abraço.


terça-feira, setembro 16, 2003

HISTÓRIAS PARA A INÊS (3)

A ONDA QUE PERDEU O SORRISO

Há muito, muito tempo, havia um mar muito, muito pequenino. Tão pequenino, que tinha só uma onda. Por isso, o mar pequenino tratava muito bem da sua onda. Era uma onda grande, quase maior que o mar. E tinha muitas cores. Sim, era azul e verde, claro, mas quando estava muito contente ficava quase violeta, ou cor-de-rosa. E sorria, sorria muito. Mas um dia, de repente, a onda ficou cinzenta e perdeu o sorriso. O mar ficou então com uma tristeza maior que ele, que era muito, muito pequenino. E como não sabia como viver sem a sua onda deixou-se afogar pelo Sol. É por isso que o mar que conhecemos agora tem muitas ondas e às vezes se zanga. Não sei se isto é verdade. Foi a minha bivó que me contou. E eu adormeci.


Selo da Inês

domingo, setembro 14, 2003

HISTÓRIAS PARA A INÊS (2)

A LUA CHEIA

Era uma quente noite de Verão e a Menina brincava ao colo do Pai no cimo de uma montanha. Olha, disse o Pai, a Lua Cheia vista daqui parece ainda mais bonita: quando a Lua está assim é bom para se ter sonhos bonitos. Não gosto da Lua Cheia, disse a Menina e aconchegou-se mais no colo do Pai. Mas porquê, perguntou o Pai, gostavas tanto... Mas agora não gosto. Está bem, disse o Pai. Sabes porquê, Pai? Não, não sei, respondeu-lhe. É que agora, nas noites de Lua Cheia, tenho muitas vezes um sonho de que não gosto nada. E queres contar esse sonho ao teu Pai? Mas a Menina ficou calada. Só te digo se prometeres não contar à Mãe. Prometo, disse o Pai. E então a Menina contou ao Pai que nesse sonho costuma ver a sua Mãe, mas na verdade só a cabeça é que é mesmo dela, do pescoço para baixo é mais como uma boneca e está sempre a ser atacada por monstros muito feios de cabeça roxa, ou verde, com umas patas muito grandes, mas ela defende-se bem e ataca-os e consegue vencê-los. Quando a lua está menos cheia é melhor para ter sonhos bons, concluiu. Pois é, concordou o Pai.


Selo da Inês

quinta-feira, setembro 11, 2003

HISTÓRIAS PARA A INÊS (1)


O SACO DE AREIA

Era uma vez uma Menina que fugiu de casa dos seus Pais. Fugiu e levou com ela um pequeno saco cheio de areia. Caminhou, caminhou e chegou a um País desconhecido. Era o País dos Homenzinhos. E os Homenzinhos disseram à Menina que trocavam cada grão de areia do seu saco por mil imagens, mil! E a Menina disse que não. Oh, como ficamos tristes, disseram os Homenzinhos, e o que vais fazer? perguntaram. Vou fazer uma cova na areia e enterrar lá o meu saco de areia, disse a Menina. E os Homenzinhos choraram e perguntaram: e depois? E depois sento-me e fico à espera que cresçam palavras, disse a Menina, e não chorou.


Selo da Inês

AMÉRICA




Morte à Orelha de Van Gogh!

O Poeta é Sacerdote
O dinheiro avaliou a alma da América
o Congresso consegui atingir o princípio da Eternidade
o Presidente construiu uma máquina de guerra que vomitará e criará a Rússia a partir do Kansas
o Século Americano for traído por um Senado Louco que já não dorme com a mulher
Franco assassinou Lorca esse filho amaricado de Whitman
tal como Mayakovsky se suicidou para evitar a Rússia
e Hart Crane esse distinto platónico se suicidou para fugir a uma América que não era essa
tal como milhões de toneladas de trigo humano foram queimadas em cavernas secretas sob a Casa Branca
enquanto a Índia morria à fome e berrava e comia cães loucos cheios de chuva
e montanhas de ovos eram reduzidos a um pó branco nos vestíbulos do Congresso
e por isso nenhum homem temente a Deus entrará nesses vestíbulos outra vez devido ao fedor dos ovos podres da América
e os Índios de Chiapas continuam a roer as suas tortilhas de vitaminas
e os Índios talvez da Austrália tagarelam nos seus desertos onde não há sequer um ovo
E eu raramente como um ovo ao primeiro almoço embora o meu trabalho requeira que infinitos ovos dêem à luz na Eternidade
os ovos deviam ser comidos ou então restituídos às mães
e a dor das incontáveis galinhas da América é expressa através de berros dos comediantes americanos na rádio
Detroit construiu um milhão de automóveis com os frutos da árvore da borracha e dos fantasmas
mas eu caminho, eu caminho, e o Oriente caminha comigo, e África inteira caminha
e mais cedo ou mais tarde a América do Norte caminhará
porque assim como rechaçámos o Anjo Chinês da soleira da nossa porta também ele nos rechaçará da Porta Dourada do Futuro
não dispensámos piedade ao Tanganika
o Einstein enquanto vivo foi troçado pela sua política celestial
o Bertrand Russel foi expulso de New York por se deixar levar
e o imortal Chaplin foi enxotado das nossas praias com uma rosa nos dentes
uma conspiração secreta da Igreja Católica nas retretes do Congresso fez com que fossem negados contraceptivos às incessantes massas da Índia
Ninguém publica uma palavra que não seja a representação cobarde dos delírios de uma mentalidade depravada
o dia da publicação da verdadeira literatura do corpo americano será o dia da Revolução
e revolução do cordeiro sexy
a única revolução sem sangue que distribui milho de graça
o pobre Genet iluminará as ceifeiras do Ohio
a Marijuana é um narcótico benévolo mas J. Edgar Hoover prefere o whisky mortífero
e a heroína de Lao Tsé & do Sexto Patriarca é punida com a cadeira eléctrica
mas os pobres drogados doentes não têm onde encostar a cabeça
amigos que temos no governo inventaram um tratamento à base de peru frio para desabituação dos drogados mas esse tratamento é tão obsoleto como o Sistema de Radar de Defesa
eu sou o sistema de radar de defesa
eu sou o sistema de radar de defesa
a única coisa que vejo é bombas
não estou interessado em evitar que a Ásia deixe de ser a Ásia
e ao governos da Rússia e da Ásia nascerão e cairão mas a Rússia e Ásia não cairão
e o governo da América também cairá mas como pode a América cair
duvido mesmo que alguém possa cair a não ser os governos
felizmente todos os governos hão-de cair
os únicos governos que não hão-de cair são os bons governos
e os bons governos são coisa que não existe ainda
Mas têm de começar a existir existem nos meus poemas
existem na morte dos governos russo e americano
existem na morte de Hart Crane & Mayakovsky
Estamos no tempo das profecias sem a consequente morte
o universo desaparecerá em última instância
Hollywood apodrecerá nos moinhos de vento da Eternidade
Hollywood cujos filmes estão atravessados na garganta de Deus
Sim Hollywood terá o que merece
Tempo
Infiltração de gás lacrimogéneo na rádio
A História tornará profético este poema e transformará o seu horrível ridículo numa hedionda música espiritual
Tenho queixume das pombas e a caneta do êxtase
O homem não pode resistir muito tempo à fome das abstracções canibais
A guerra é uma abstracção
o mundo será destruído
mas eu morrerei apenas pela poesia, que há-de salvar o mundo
Monumento a Sacco & Vanzetti ainda não financiado para enobrecer Boston
Nativos do Kenya atormentados por burlões idiotas da Inglaterra
A África do Sul sob o poder de um branco tonto
Vachel Lindsay Ministro do Interior
Poe Ministro da Educação
Pound M.º da Economia
e Kra pertence a Kra, e Putki a Putki
fertilização cruzada de Blok e Artaud
a orelha de Van Gogh reproduzida nas notas e nas moedas
mas deixemo-nos de propaganda a favor de monstros
e os poetas não se devem meter na política senão tornam-se monstros
eu tronei-me monstruoso com o política
o poeta russo indubitavelmente monstruoso no seu livro de notas secreto
é melhor não se meterem com o Tibete
Estas profecias são óbvias
a América será destruída
os poetas russos lutarão com a Rússia
o Whitman já nos tinha prevenido contra a nossa «nação fabulosa e danada»
Onde estava Theodore Roosevelt quando enviou ultimatuns do seu castelo em Camden
Onde estava a Câmara dos Representantes quando Crane leu em vos alta os seus livros proféticos
Que estava Wall Street a planear quando Lindsay anunciou o apocalipse do Dinheiro
Estariam todos a ouvir os meus delírios nos toilettes do Escritório de Colocação de Empregos Bickford?
Aproximaram as orelhas dos regougos da minha alma enquanto eu lutava com as estatísticas da sondagem de mercados no Fórum de Roma?
Não, nada disso. Preferiram bater-se uns com os outros, em escritórios a arder, sobre alcatifas de enfarte de miocárdio, gritando regateando com o Destino, combatendo o esqueleto com sabres, mosquetes, dentes tortos, indigestões, bombas roubadas, prostituição, foguetões, pederastia,
encostados à parede, para construírem o seu mundo com esposas e apartamentos, relvados, subúrbios, reinos de contos de fadas,
os Porto-Riquenhos amontoados para serem massacrados na Rua 114 em holocausto a um frigorífico do último modelo do tipo Chinês Moderno (imitação)
Elefantes de misericórdia assassinados em holocausto a uma gaiola de pássaros da época isabelina
milhões de fanáticos agitados no manicómio em homenagem aos sopranos da indústria
Cantochão financeiro dos saboeiros – macacos de pasta dentífrica no receptores de televisão - desodorizantes em cadeiras hipnóticas –
traficantes de petróleo no Texas – sulcos de aviões de jacto por entre as nuvens –
aviões que traçam no céu letras de fumo com mentiras publicitárias mesmo nas barbas da Divindade – carniceiros de chapéus e de sapatos, todos eles Proprietários! Proprietários! Proprietários! com a obsessão da propriedade e da individualidade em vias de desaparecer!
e os seus longos artigos de fundo, estampados logo na primeira página, acerca de negros devorados pelas formigas!
Maquinaria de um sonho eléctrico colectivo! Uma cortesã da Babilónia, bramindo sobre Capitólios e Academias, parturejando a guerra!
Dinheiro! Dinheiro! Dinheiro! ganidos do dinheiro louco e celeste da ilusão! O dinheiro feito do nada, da miséria, do suicídio! Dinheiro! do fracasso! Dinheiro! da morte!
Dinheiro contra a eternidade! e os moinhos robustos da eternidade triturando o imenso papel da Ilusão!
Paris, 1958
Allen Ginsberg, do volume Kaddish and Other Poems, em Uivo (trad. port. José Palla e Carmo, Lisboa, Dom Quixote, Cadernos de Poesia, 1973: 67-75)