sábado, julho 19, 2003

AFECTOS (8)

Gnossienne Nº 1

«Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.»

Rui Pires Cabral, Música Antológica e Onze Cidades, Lisboa, Presença, 1997: 11

Fim de semana

«Fim de semana nos arredores
onde quer que se encoste a luz, aquele domingo de Maio
ouvindo os sinos em Mafra. No escuro eu já caminhava
para ti? A cada manhã posso dizer: ainda se mexem
os dias, tenho um préstimo para estes braços.

No pequeno café onde calha
trazes uma razão agarrada, guardas o meu movimento em ti
como num mapa. A Califórnia toda enfeitada no lustro
das fotografias, os lagos frios de Lausana
ou Genebra: o que interessa isso agora?

Descascas uma laranja para mim. Com a música alto
levamos livros e cigarros para a cama, os estores estão corridos
desde o princípio da tarde.»

Rui Pires Cabral, Praças e Quintais, Lisboa, AVERNO, 2003: 26

Sem comentários: